Archive for agosto, 2009

Bio Dementia Vampiria

sexta-feira, agosto 28th, 2009

Um drink no inferno. E o garçom é meu amigo. Em cima do balcão uma ruiva branquinha dançando. Alerto um cara: “Olha bicho, cuidado que essa mina dá chute”. E ele me responde “eu sei” mostrando o beiço cortado

por Leandro Hammerschmidt

Confesso que aceitei desconfiado o convite do Carlos Zava pra ir ao Opera 1 curtir o festival Bio Dementia Vampiria - de música gótica. Primeiro, porque não sou muito fã deste estilo de música, de vida, de arquitetura, sei lá que diabo. Nada contra, nada mesmo, mas, na verdade, nunca soube ao certo o significado de ser “gótico”. Era uma criança quando assisti “De Corpo e Alma” e me lembro do gótico Reginaldo, interpretado por Eri Jonhson – mas calculo que aquilo seja mais um estereótipo de novela da Gloria Perez. Só que não desprezo estereótipos. Eles servem pra facilitar nossa “compreensão” das coisas. Além do que, como diz o Michael Jackson “a mentira vira verdade”, e nem é questão de repetir. A coisa vai se fazendo. Enfim.

Fui ao Bio Dementia cheio de velhas ideias e levei minha irmã Sabrina (como fotógrafa), e meu camarada Sandro Sal (pra beber mesmo). Na escada do Opera encontramos um monte de gente branca e maquiada. Fiquei enciumado com a receptividade das moças para com a minha irmã. Nada comigo.

Na programação do Bio Dementia Vampiria anunciava pirofagia, concurso de fantasia (melhor vampiro, melhor vítima) e boa música. E, realmente, a banda Nahtaivel é surpreendente: o cara de coringa toca um dark electro sinistro e o guitarrista é um negão fudido. O que deu a entender a principal atração do festival era a banda Encarmation, uma cover de The Sisters of Mercy e a terceira banda era Scarlet Leaves.

Sinceramente me lembro só da primeira porque estava sumido no show da segunda e fiz uma “saída de emergência” antes da última.

Dark Roon

Estou solteiro e dei um perdido na minha turma pra conferir o quarto escuro e, olha, fiquei satisfeito, muito satisfeito! Além de ter cerveja à preço razoável (pra balada), no Opera 1 dá mais mulher que homem. Uhul. E dei sorte aquele dia. As coisas iam tão bem que já não me agüentava mais de esperar o momento em que as portas seriam trancadas e as moças virariam vampiras e o DJ anunciaria no microfone a nossa morte, ou pior, às portas trancadas e de repente o uivo horripilante do lobisomem americano em Curitiba. Qualquer coisa de cinema. Mas não, claro que não, né! No máximo o Zé Pilintra estava solto na balada. Mas ninguém virou lobisomem. Pelo menos, na minha frente. Talvez lá no Dark Roon. Oh, yeah, lá no Opera tem um quarto escuro cheio de vampiras lésbicas!

Ar fresco e ventos do passado

Saí pra tomar um ar no largo da ordem, pensando em voltar. No passeio encontrei um povo “gótico” ali nas escadarias - perto das ruínas da São Francisco - no lugar onde está enterrada a cabeça da cobra-verde que destrói o chão e os muros da cidade -, é lá mesmo onde a rapaziada joga peteca e toma vinho.

Subi as escadas, dei uma olhada e senti saudade da adolescência: quando gostava e freqüentava muito o largo da ordem. Quando ia direto ao Bills Bar curtir um cover. Encontrava o Feijão, o Farofa, o Fedor, Gnomo, Kolb e toda a turma do Colégio Estadual do Paraná – bom tempo. Quem viveu sabe que no Bills todos os dias a gente podia ouvir Paranoid, dar uns gritos e conhecer gente esquisita. E foi nesse lugar que tive contato com algumas pessoas que reconheci como góticos.

Naquela época, adolescente, não “fui pras cabeças”, e pior, fui bem cusão até, ao recusar o convite da minha primeira mulher pra tomar um vinho com eles no cemitério municipal. E ler poesia, será?

Gosto de vinho, viro uma “borsa” quando tomo muito, mas não curto lenga lenga: rituais, poesia, grupos. Mas nem sabia que o negócio era quente. Senão até teria me infiltrado antes.

O que é ser gótico?

Existe um site que explica em poucas palavras o que é ser gótico. Como não tinha a referência e nem resposta para “o que é ser gótico?” Procurei resposta na fila da cerveja: perguntei a um cara, mais ou menos da minha idade, 26, se existe um grupo de góticos, uma seita, uma confraria, sei lá que diabos, aqui em Curitiba? E ele foi taxativo ao dizer que não! Garantiu-me que o que existe hoje é um estilo, um estilo de rock.

Como estava me dando bem com as originais e já sem força de vontade pra apurar as informações. Resolvi dar por encerrada minha pesquisa jornalística e passei a curtir a festa e fotografar as beldades que dançavam em cima do balcão. Fotografei ao melhor maior estilo “uau, domingo legal”, mas é claro que não vou publicá-las - vai saber a idade das vampiras.

A festa estava do caralho

E só acabou quando quis dar uma de Terry Richardson e fotografar o quarto escuro. Turma, na real, só bati um flash pra alumiar a festa, ser a lâmpada da orgia. Porra, sou da muka! Mas não colou, levei um esporro daqueles. E fiquei quieto, no máximo rindo, porque sei que fui moleque, mas… Deixe baixo. Como estava (tarde), sem alho, sem razão, cozido e ainda em minoria, achei melhor sair da festa batido e evitar derramamento de sangue tipo A+.

fotos do Bio Dementia by Sabrina

sexta-feira, agosto 28th, 2009

Nahtaivel

galera

expectativa no balcão do bar

estes já conhecem o show das minas

ai ai

o sangue era azedinho

joelhinho ralado, que pecado!

até agora não entendi o que significa Bio Dementia Vampiria

pyro

tinha pro pessoal do metal também

dá-lhe kiss

igual pinto no lixo

chega!

seja nosso amigo lá no orkut e veja FOTOS EXCLUSIVAS (pro link dar certo vc precisa estar logado)

Québec - Comprenez-vous français?

sexta-feira, agosto 28th, 2009

MontrealAuto-estrada em Montreal, maior cidade de Québec- foto divulgaçãoQuébec busca imigrantes com qualificação profissional

por Gladson Fabian Marques - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

Estiveram ontem em Curitiba, na Universidade Positivo, uma delegação do Ministério do Trabalho do Canadá, vindos diretamente da província de Québec, região autônoma da nação mais ao norte das Américas. O objetivo dos funcionários do governo canadense é incentivar profissionais gabaritados a imigrarem para a província do Québec, um Estado com autonomia administrativa onde mais de 80% da população fala o idioma francês, tem uma origem latina e uma cultura cosmopolita. Somente no ano de 2009, 50 mil pessoas de diferentes partes do mundo emigraram para as diversas cidades de Québec, para somar a sua população de mais de sete milhões de habitantes.

Québec tem uma história ligada aos conflitos entre ingleses e franceses pelas colônias no Novo Mundo. Fundada em 1608 pelo rei Henrique IV da França, a província do Québec é a maior província do Canadá, com uma área territorial três vezes maior do que a França e com uma economia sólida e crescente, com 68% de seu PIB baseado no setor de serviços (3º setor) e apenas 2% no setor primário. É também a maior geradora de energia do país, com 95% da energia consumida pela província gerada em usinas hidrelétricas, grande fonte de empregos na indústria, que também emprega pessoas nas áreas de telecomunicações, mineração e aeroespacial.

Um dado importante para aqueles que querem imigrar é que em Québec não há desiquilíbrios regionais entre seus municípios, prevalecendo uma equidade social entre seus cidadãos e suas cidades. Respeito pelas diferenças e pelo meio ambiente são parte fundamental da sociedade quebequense, intolerância racial, social, religiosa ou sexual não são toleradas pelos cidadãos, a educação fundamental e o ensino médio são gratuitos a todos os canadenses e às pessoas com visto de residente permanente, assim como a assistência hospitalar gratuita.

O ensino superior é pago, mas o valor em média é de 3 mil dólares canadenses por ano, e tanto os cidadãos canadenses como aqueles com visto de residência permanente podem fazer uso de suas faculdades e ainda pedir empréstimos ao governo para pagar ao final do curso, com juros que variam de 0,5 a 1% ao ano.

Os valores de salário para os profissionais é variável, mas uma pessoas em início de carreira em áreas com formação simples ganham em torno de 40 a 45 mil dólares canadenses por ano (o dólar canadense tem uma paridade de R$1,70/1), com uma moeda estável e possibilidades reais de mudança de profissão caso deseje o imigrante. Uma dica valiosa para avaliar o custo de vida é buscar na internet sites de mercados e imobiliárias online quebequenses para saber quanto custará viver na cidade onde deseja se mudar.

Todas as cidades da província tem centros locais de desenvolvimento, que fazem feiras de emprego aos candidatos ao visto de residente permanente, e o governo quebequense auxilia a adaptação com mil horas gratuitas de aulas de francês ao interessados em morar em Québec.

Como Fazer

Ao entrar no site www.imigration-quebec.ca , o candidato encontrará uma questionário para saber quais suas reais possibilidades de ser aprovado no visto de residente permanente, podendo o candidato fazer uma seleção anônima antes de inscrever seus dados. Se você for aprovado, receberá o visto de residência permanente e após cinco anos, se o candidato tiver dois anos alternados (entre permanência e férias no Brasil, por exemplo) no Canadá, terá seu visto revalidado. Após três anos de moradia em Québec, o imigrante pode entrar com pedido de cidadania canadense. Como imigrante com visto de residência permanente, é possível usufruir do sistema de saúde canadense, abrir um negócio, entrar em sair do país a qualquer momento, trabalhar e ter os mesmos direitos trabalhistas de um cidadão. Após adquirir sua cidadania, terá direito a votar e ser votado e obter o passaporte canadense, sem necessitar renunciar a sua cidadania original.

No site www.cnt.gouv.qc.ca é possível ler um pouco mais sobre a legislação trabalhista e os direitos e deveres do cidadão quebequense.

Critérios de avaliação

Québec possui um dos mais transparentes processos de seleção de trabalhadores do mundo. Vale ressaltar que a província, ao contrário de outros países, não busca profissionais de baixa escolaridade e/ou capacitação, e apesar de respeitar todos os cargos e funções de uma sociedade, a meta do programa de imigração é trazer ao pais do norte profissionais com cursos de formação técnica e/ou superior, para manter o crescimento econômico da região e manter as taxas de crescimento populacional dentro do limite mínimo para uma economia se manter aquecida.

O nível de escolaridade é um dos requisitos que traz maior pontuação ao candidato, assim como experiência profissional na área de atuação, idade igual ou inferior a 35 anos, domínio das línguas francesa e/ou inglesa, capacidade de conseguir trabalho a curto prazo, e a assinatura de um termo de compromisso de possuir recursos financeiros ao entrar no país. Nesse último quesito, é bom frisar quanto é essa quantia por pessoa: algo em torno de 2700 dólares canadenses, sendo que o governo não vai averiguar se a pessoa tem esse dinheiro; ele parte da premissa que se você assinou o termo é porque diz a verdade. A idade também não é um impedimento, mas se estiver dentro do limite citado, conta pontos, assim como a língua francesa pode contar muitos pontos, mas nenhum dos critérios acima se faltar é motivo para barrar o candidato.

Outras áreas que podem facilitar o acesso: área de estudo correlata com a necessidade local de trabalhadores especializados; ter no passaporte uma viagem de turismo ao Québec, ter filhos (sim! O Canadá facilita para aqueles que desejam criar seus filhos na sociedade quebequense, inclusive com turmas escolares com aulas de adaptação ao francês).

Passo a passo

Após dar entrada nos papéis e marcar sua entrevista com o comitê de imigração ao Québec, o candidato irá preencher um formulário chamado “demande de certificat de selection”. Enviará junto com o formulário cópias simples dos seus documentos e pagará a taxa de 390 dólares canadenses, via cartão de crédito internacional (pode ser de outra pessoa). Caso tenha um conjugue, o valor pago pelo parceiro(a) é de 150 dólares canadenses. Se é um casal, e um dos dois tem uma pontuação menor na avaliação, ele pode entrar como conjugue do candidato, podendo assim aumentar as chances reais de saírem do país e imigrarem para Québec.

A etapa dois do processo consiste em uma entrevista em São Paulo, com os responsáveis pela sua avaliação. Ela será feita em francês (o entrevistador é versado em português, por isso não tenha medo de responder o que não souber em sua língua natal), onde será avaliado seu domínio da língua francesa, se conhece outro idioma (inglês e/ou espanhol), será comparado os documentos fotocopiados com os seus originais, seu projeto de vida e sua capacidade de trabalhar a curto prazo. Uma dica: a pior resposta que pode dar é “faço qualquer coisa que aparecer”, pois este não é o perfil que procuram.

O tempo do envio dos fomulários até a chamada para a entrevista varia de três a cinco meses e a emissão do certificado de seleção de Québec (CSQ) sai logo após a entrevista, ou seja, se você for aprovado, não tem que esperar para saber.

A etapa três é a admissão, agora nas mãos do governo canadense. Ele é responsável pela normas de segurança e saúde do país, e irá avaliar seu pedido de visto, que deve ser expedido pelo consulado canadense. Não há outra entrevista nessa etapa, e o consulado leva de sete a dez meses para emitir seu visto no passaporte, após a verificação de negativa de antecedentes criminais. As taxas para verificação e emissão são de 550 e 495 dólares canadenses, respectivamente.

Caso tenha se interessado, acesse o site www.radio-canada.ca/actualite para saber mais sobre a cultura quebequense, ou o site imigration-quebec.ca para agendar sua entrevista. No endereço www.emploiquebec.net você poderá verificar as áreas com maior chance de sucesso profissional e ressaltamos aqui que o Québec pretende nos próximos anos contratar mais de 250 mil profissionais especializados para manter suas fabulosas taxas de crescimento de sua bela província.

Agora vai

terça-feira, agosto 25th, 2009

Depois de ser adiada por causa da gripe do porco, acontece agora, dia 2 de setembro, às 20 horas,
a estréia do filme “Outros Olhos
lá na Cinemateca de Curitiba. Rua Carlos Cavalcanti 1174, São Francisco. Entrada Franca.

Decisões Póstumas

quarta-feira, agosto 19th, 2009

Decisões Póstumas chega como a “melhor comédia do ano sobre crença e costumes bávaros”. Sinceramente, não me lembro de ter visto uma comédia sobre costumes bávaros, mas fiquei curioso e estou disposto a conferir se a informação procede nesta terça-feira (25), quando voltam às exibições do FilmClub, lá no Goethe Institut.

Venha conferir também! A exibição de Decisões Póstumas é gratuita e abre a nova programação de quatro filmes em língua alemã. Aviso aos sortudos, ao final da sessão, o pessoal do Goethe sorteia um filme de cinema alemão (em dvd) entre os espectadores.


+ informações:

Decisões póstumas (Wer früher stirbt, ist länger tot)
Direção: Marcus Hausham Rosenmüller, colorido, 102 min., 2006


Serviço:

Dia: 25/08/2009
Horário: 18:30
Local: Goethe-Institut Curitiba – em frente a praça do expedicionário
Entrada franca - Legendas em português – sorteio de DVD

Entre a Cruz e o Inferno

domingo, agosto 16th, 2009

por Fabio Mattoso - fabio_mattoso@hotmail.com

Já há certo tempo e por muito tempo ainda, eu espero, vivo na noite curitibana. Mas não a noite do Batel, ou do circuito pop-rock-hippie moderninho do Largo da Ordem, tampouco a noite pagodeira e longe da eletrônica.

O que vivo é a noite da Cruz Machado e sua região. A Curitiba revelada.

Digo a Cruz Machado, porque ela simboliza um estereotipo de lugar em Curitiba, e as ruas próximas são afetadas por essa impressão (Fernando Moreira, Saldanha Marinho, Dr. Muricy, Al. Cabral, etc. e tal). Digo entre a Cruz e o Inferno porque é como costumo chamar o trecho entre uma boate gay, na rua dos chorões, e a Cruz Machado. Estereotipado também são as pessoas que freqüentam, trabalham ou vivem na região. Ali estão os viciados em crack, cocaína, as prostitutas e as zonas do meretrício, também os traficantes e os bêbados, os travestis e os gays, garçons e garçonetes, bailões, bares e botecos. Crianças e velhos. Todos poetas. Que fazem da vida uma linda e triste poesia. Maldita. Marginal. Romântica. Mágica.

Mágica, pois emana de um lugar mágico, onde a cidade se revela. A Curitiba que se esconde pelas vielas. A Curitiba que se esconde nas madrugadas. Nos apartamentos. Nos quartos de motéis. Que finge nos shoppings. Essa Curitiba se revela ali. Se revela nos homens que, casados vivem enrustidos, e ali buscam as travestis. Gordas, femininas, gostosas, masculinas. Se revela nos homens que ali buscam o sexo fácil com as meninas, novas e velhas, das boates. Boates caras, baratas, mas com o mesmo whisky falsificado. Nos gays que se escondem nas boates gays, onde podem se revelar sem medo, num espaço de liberdade. Nos viciados que buscam o prazer da droga. Ou a necessidade. Necessidade que por vezes é mais importante que o sexo, que a amizade, que a paz. Ou quem sabe, ali se revelam os viciados em jogo. De baralho, máquinas, roletas. O dinheiro que vai e vem. A bebida que entra em balcões frios e sai em banheiros minúsculos e fedidos. Fedidos, mas que ninguém ali sente - narizes sempre trancados de pó.

Um lugar mágico. Onde o tempo é outro. Onde a felicidade é genuína. Genuína mesmo invadida pela necessidade do vício. Um lugar para onde se pode fugir e onde se pode encontrar. Um lugar com o ritmo diferente da cidade. Com o ritmo que uma cidade deve ter. Onde gosto de ver o rosto das pessoas, dentro dos ônibus pela manhã, indo trabalhar, olhando para nós com um misto de espanto e inveja. O agito da cidade, os carros, ônibus, pessoas passando para o trabalho. E nós ali, o tempo que parece parado entre bebida, cigarros, amigos e as drogas.

Ou quando a cidade para, nos finais de semana ou nas madrugadas, quando todos parecem estar dormindo, ou em casa descansando. Quando pela cidade até se pode escutar o vento entre os prédios, ou nas árvores dos bairros. E você chega ali, em um bar qualquer, seja na Cruz, na Saldanha, na Rua dos Chorões. E está tudo a mil por hora. Todos agitados, felizes, em movimento. Como um filme.

Um lugar de perdedores, um lugar de vencedores. Mas que ninguém da à mínima para isso. Um lugar de felicidade. De tristeza. De liberdade. Um lugar de decadência. Mas onde eu me encontro. Um lugar onde me levanto. Onde sou Rei. Onde todos são Reis. Alguns são Rainhas. Alguns são Reis e Rainhas. Ali, Jesus desce da cruz, entra no inferno e abraça o diabo. E a paz se faz.

Tempos de Paz…, no Brasil de Getúlio Vargas

sábado, agosto 15th, 2009

por Joba Tridente – jobatridente@hotmail.com

Tempo de Paz, a versão cinematográfica da montagem teatral Novas Diretrizes em Tempos de Paz, de autoria de Bosco Brasil, que em 2002, com a direção de Ariela Goldman, recebeu os prêmios Shell (Autor: Bosco Brasil, Atores: Tony Ramos e Dan Stulbach e Iluminação: Gianni Ratto) e APCA - Associação Paulista dos Críticos de Arte (Autor: Bosco Brasil e Ator: Dan Stulbach), chega agora aos cinemas, com a direção de Daniel Filho e, no elenco, a premiada dupla protagonista do teatro.

1945. A 2ª Guerra Mundial chega ao fim na Europa. No Brasil Getúlio Vargas, por conta da pressão dos EUA, anistia presos políticos. Em tempos de ditadura, qualquer brecha pode ser um aceno a Tempos de Paz e conciliações após anos de degradação humana nos porões do poder. É uma paz passageira e, como todos (que querem saber) sabem, não demorou para que os porões voltassem a ser ocupados para novas “correções” ditatoriais. É nesse período e clima de mudança aparente que entre os imigrantes europeus chega Clausewitz (Dan Stulbach), um ator polonês, desencantado com a profissão, que acredita num Brasil inexistente onde espera se tornar um agricultor. No meio do caminho, entre a alfândega e a terra ainda por conquistar, ele tropeça em Segismundo (Tony Ramos), o chefe da imigração da alfândega do Rio de Janeiro, ex-oficial da polícia política, ex-torturador de presos políticos…, que nunca foi ao teatro.

Feliz por estar no Brasil e querendo impressionar os encarregados da alfândega, ao recitar um poema de Carlos Drummond de Andrade, em português, Clausewits é confundido com uma nazista e se vê obrigado a provar o contrário ao frio e amargurado Sigismundo, que não esperava as reviravoltas políticas no país e na sua própria vida, com o fim da guerra. Acostumado a dar ordens (e muito mais em acatar), Sugismundo recebe, num sótão e num porão obscuros, Clausewits, para que este prove não ser um nazista fugitivo disfarçado de agricultor.

Em Tempo de Paz tudo é um grande teatro. A sala é um palco claustrofóbico onde Sugismundo usa todo o seu poder para intimidar os imigrantes e decidir se ficam ou se voltam para casa. A sala é o palco onde Clausewits terá que usar todo o seu recurso de ator para provar que é um agricultor ou um ex-ator ou ainda um ator que não acredita mais no teatro para a representação no pós-guerra. Nesta sala sombria um representará para o outro. Um tentará provar ao outro a sua infelicidade e a sua desgraça perante a raça humana. Um por ter torturado inocentes. Outro por assistir passivamente aos horrores da guerra. Crime político ou crime de guerra? O drama de um encontra eco na tragédia do outro. O final do embate é imprevisível. A culpa de ambos é imensa e tanto pode vencer aquele cuja dor é maior como aquele que se expõe mais.

Tempo de Paz foi roteirizado pelo próprio autor teatral, Bosco Brasil e, na adaptação cinematográfica, na representação da representação quem se sai melhor é Dan Stulbach. Tony Ramos, excede onde deveria ser mais comedido. O texto de Bosco Brasil é forte, pesado, dramático ao extremo e um vacilo da direção, pode por tudo a perder. Talvez por isso a discreta direção de Daniel Filho não compromete o que já está pronto desde o teatro. Não há invenção cinematográfica. Chega parecer um teatro filmado, principalmente quando o foco é Tony Ramos…, mas, na vez de Dan Stulbach a magia do ator e do personagem-ator se (com)fundem e mesmo no claustro a tela se ilumina.

O trailer de Tempo de Paz não é lá muito convidativo. O filme é bem menos tenso do que parece. Mas está longe de ser um drama leve ou de costume. Valorizando a palavra (e que palavra!) mais que a ação (implícita nos gestos…, nos olhos…, na voz) Tempo de Paz pode incomodar, pela sugestão do horror praticado no Brasil e na Europa (tortura física e mental e outras mazelas que só os humanos são capazes de praticar) e até mesmo cansar quem busca fluidez. Mas, longe da onda de filmes que cultuam temas como favela/tráfico/violência, é provável que encontre o seu público. Como Tempo de Paz é praticamente um filme de dois atores, já premiados no teatro pela mesma interpretação, não há muito que se destacar. A não ser, talvez, a marcante abertura, a discreta música de Egberto Gismonti e a fotografia correta de Tuca Moraes.

O foca e a Vaca - II mandamento

quinta-feira, agosto 13th, 2009

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Brüno…, ou: O Ridículo de Cada Um

quarta-feira, agosto 12th, 2009



por
Joba Tridente - jobatridente@hotmail.com

 

Brüno, o novo personagem do comediante Sacha Baron Cohen, é o avesso de Borat, mas tão divertido quanto. Ou mais. Brüno, que também é dirigido por Larry Charles (de Borat e Religulous), satiriza, sem nenhum pudor, o mundo fashion, as celebridades de ocasião e, principalmente, a homofobia.

 

Em Brüno, Sacha Baron é um fashionista gay austríaco que tem um programa de televisão, sucesso em todos os países de língua alemã, menos na Alemanha, e que, após uma grande e hilária confusão num desfile de moda, é demitido e decide ir aos Estados Unidos para se tornar mais célebre que Adolf Hitler. Levando, meio a contragosto, um auxiliar de seu ex-personal style, Lutz (Gustaf Hammarsten), que o ama de paixão, Brüno logo vai descobrir que vai ter de rebolar muito para conquistar uma brecha no rol dos famosos e continuar top.

 

Engraçadíssimo, com seu humor ferino, ou negro, ou estilo pegadinha, Brüno não é um filme indicado a preconceituosos de qualquer estirpe, já que vai fundo na sua parte, digamos, documental e arranca declarações e ações inacreditáveis e inconfessáveis de seus ridículos e desavisados entrevistados. Rimos de todos eles e, às vezes, lá no fundo, de nós mesmos. É difícil falar de Brüno, sem descrever algumas “gags” e estragar as “piadas” quase contínuas. Mas estão todas lá (algumas desde Borat) e vão da nudez explícita a inesperadas situações e posições sexuais…, da descoberta da sexualidade à inversão de comportamento sexual…, do pensamento político ao pensamento religioso de judeus, libaneses e afro-americanos…, e de, quebra, pais capazes de tudo, em busca da fama para os seus filhos.  É ver para crer e chorar de rir. E pensar que tudo que passa ali, naquela tela de cinema, é a mais pura verdade sobre o homem e as “suas” idiossincrasias ocultas sobre frágeis véus, desveladas com um simples sopro de Brüno/Cohen.

 

Quando ouvi falar de Brüno, imaginei algo a lá Prêt-à-Poter, o mundo fashion na divertida visão de Robert Altman, mas as alfinetadas de um e as chuleadas de outro caminham em tecidos parecidos, mas com cortes diferentes. O filme Brüno entra em cartaz ainda neste mês de agosto…, o mês do cachorro louco. Mas, lembre que, se você gostou de Borat, vai amar Brüno e sua brünices. Caso contrário…, leve a sua gripe suína pra outro lugar.

Eros & Ética

sábado, agosto 8th, 2009

1
Há meses um movimento de caça a livros de literatura diversa, à disposição básica de alunos fundamentais, e/ou distribuídos a bibliotecas e escolas, tropeçou e caiu no sul do país. E pensar que tudo começou por causa de um pequeno (?) erro, ou confusão (?) geográfica, num livro didático onde, parece que, a Venezuela estava no lugar da Argentina ou tinha duas Bolívias e sem o Peru ou era uma Argentina no lugar da Colômbia e outra no lugar do Paraguai ou…, cometido por algum americano do sul que, assim como a maioria dos americanos do norte, não tem a menor idéia do que existe depois (ou seria abaixo?) do México. A balbúrdia em torno do assunto até que serviu pra muita gente se lembrar o que existe ao lado esquerdo (ou seria direito?) do Brasil. Por certo muita gente nem sabia que a gente tinha tanto vizinho assim além da Argentina e dos dois Paraguais: um que vende bugiganga chinesa para sacoleiro e outro que vende bugiganga chinesa para lojistas.

2
E então, por conta da histórica geografia (ou seria matemática?), por curiosidade alguém resolveu se dar ao trabalho de também abrir e mesmo ler um livro (ôpa!) e outros, das publicações indicadas aos alunos do ensino fundamental e médio e aí: Minerva e Musas nos acudam! Em São Paulo, Santa Catarina e Paraná, “indiciados os escritores” (entre eles: Will Eisner, Dalton Trevisan, Manoel Barros, Cristóvão Tezza), foram recolhidos aquela obras literárias que tinham palavrinha, palavra e palavrão (de alto, médio e baixo calão?) e (obs)cenas eróticas e pornográficas que incomodam, e muito, principalmente os conservadores de ocasião e religiosos oportunistas que (re)conhecem libidinagem (estupro, incesto, pedofilia, violência gratuita) em obras literária alheias mas não na Bíblia que professam.

3
Diz, uma moral da mitologia judaico-cristã, que o mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem… No Brasil, onde a televisão veicula a qualquer hora do dia ou da noite, anúncios diversos, clipes musicais, programas macho-falocratistas, explorando a exaustão mulheres em trajes sumários (às vezes só com tapa sexo), ou nuas (no carnaval), e outros recheados com linguagem chula, briga de família, baixaria generalizada, erotização de crianças, violência explícita e manipulação de notícias, “telejornais” sangrentamente desgraçados, lavagem cerebral religiosa…, onde as bancas de revistas expõem jornais que exploram “profundamente” as tragédias humanas, revistas de nus ginecológicos e sexo explícito com seus dvds ao alcance de qualquer olhar e ao acesso de qualquer criança que anda pela rua ou fica em casa só, ou com bábá ou mesmo com os pais…, condenar autores e suas obras (por indicação/sugestão de leitura que não fizeram) é, no mínimo, doentio. Ou será que todo esse vômito fétido acima (ou seria em cima de todos nós?) pode, já que os responsáveis pelos filhos se desculpam (sempre!) refugiando no trabalho? Um erro não justifica outro. A catarse ou não de cada autor não acaba cortando-lhe a língua, furando-lhe os olhos, cortando-lhe as mãos…, o pensamento é livre e voa e, assim como o desejo, a curiosidade segue atrás com maior ou menor intensidade da proibição, uma hora ou outra!
Aos modos do “atire primeiro e pergunte depois”, infelizmente natural no país da truculência, onde impera a hipocrisia generalizada do “porque sim!”, foram executadas as obras e seus autores, pelo que escreveram ou sugeriram ou quiseram dizer, como se estes livros tivessem sido escritos para o uso didático da discórdia. Perdeu-se, aí, um precioso momento para se discutir, em sala de aula, literatura na sua forma global e seus detalhes de linguagem. A verdade é que, nessa hora, ninguém quer saber da linha evolutiva (existe?) da literatura brasileira!

4
Em fins da década de 1970, “brinquei”, para meu infortúnio, (mas não me arrependo!) com a retórica, em um artigo para o Correio Brazilense: Antes que a dialética se torne retórica e se entorne em eloquência. Na dúvida sobre a intenção do tema, e não muito versados em metáfora, os “home” dependuraram a matéria que falava de educação e política…, mas, ingenuamente, por acreditar em “A Ilha” (de Fidel Castro), exposta no livro de Fernando Morais…, meses depois me vi obrigado a sumir no mundo, indo trabalhar com Cooperativismo, em Ilhéus, na Bahia. No genial e obrigatório filme Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, o professor François (François Bégaudeau) é “condenado” pela intenção de uma palavra não dita, mas entendida como dita. Ao se referir a um ato negativo cometidos por algumas alunas ele diz: - Vocês parecem vadias…, mas elas compreendem: - Vocês são vadias… Assim a questão (de semântica?) do não dito vira um mal dito num momento de tensão e frágil relacionamento entre professor e alunos excluídos socialmente.

5
Já vi criança de dois anos ingenuamente perguntar ao pai, em uma banca de jornais, se a mulher nua, exposta na capa de uma revista ia tomar banho. Em minhas andanças pelo interior do Paraná, orientando oficinas, já vi e ouvi criança de seis anos dizer coisas de arrepiar. Já assisti apavorante estranhamento entre professor e aluno em sala de aula. A criança é o eco dos pais (do país) e das mídias cada vez mais acessíveis. Hoje os tempos escolares são tão outros que há que se praticar uma nova didática. E praticar realmente não quer dizer teorizar.

6
Estamos vivendo uma época de burocratização generalizada tanto na cultura quanto na educação. Se a um artista não basta ser bom em sua arte, tem que se tornar uma empresa, ter CNPJ ou trabalhar para um atravessador cultural, um professor, se quiser melhorar o seu “salário”, tem que buscar novas certificações. E há todo um comércio de pós educação para todos os gostos, necessidades e bolsos…, como se fosse possível habilitar o inapto. Teoria nada prática da educação formal e muito menos informal. Não é fácil traduzir teorias, compilações, citações alheias, referências de uma monografia (jamais uma estéreografia) em algo realmente prático. Em tese não basta encontrar ou achar ter encontrado teóricas soluções miraculosas na burocracia da palavra. Palavras ao léu voam longe e nunca tocam o chão. Há que ser prático na educação escolar, na disposição da arte, da cultura, na vida escolar e familiar. É valorizar o acerto! É buscar o acerto no erro!

7
O que Eros e Ética têm a ver com educação, censura, literatura e infância, mídia e adolescência? Pergunte ao tempo!

Joba Tridente. Um livre pensador e, nas horas vagas, Oficineiro Cultural.

jobatridente@hotmail.com