por Vanda Moraes - vandymoraes@yahoo.com.br
No fim do dia tudo gira em torno da sobrevivência. Uma vez que se aprende esta lição fica muito fácil conviver com animais selvagens que podem te devorar.
Outro dia lendo a biografia (recomendo) do sempre brilhante Slash, me deparei com este pensamento. Segundo ele, é muito mais fácil conviver com animais selvagens, como cobras e leões, do que com a maioria das pessoas que se julgam humanas e dizem ser civilizadas.
Na última sexta-feira, sem nem mesmo ter planejado, presenciei uma cena que confirmou esta teoria: estava usufruindo o “modelo de transporte público da cidade ecológica”. Seis horas da tarde, a melhor parte de usar o ônibus bi-articulado é o calor humano que pode ser sentido. Cheiro de suor, pessoas que se empurram na luta pelo espaço menos pior…
Ligeiramente à minha frente, em um lugar (dito) preferencial, um garoto, menos de 20 anos, está despreocupadamente acomodado. Uma senhora, cerca de 60 anos (que chamaremos aqui de Primeira), pede gentilmente o lugar explicando, inclusive, que machucou a perna e não consegue mais ficar em pé. O menino, como não poderia ser diferente, levanta-se e se segura como pode na multidão que se acotovela.
Nisto, outra senhora (que chamaremos de Segunda, apenas pela ordem sem nenhum juízo de valor), cerca de 60 anos, também, se dirige àquela que afirmou estar com o pé machucado, e solicita o lugar, não tão delicadamente assim. A primeira senhora explica, então, a sua situação: está com o pé machucado, é idosa também.
Logo à frente outro lugar preferencial é dividido por um jovem, cerca de 25 anos e uma senhora (esta a Terceira), em cuja companhia podem ser encontrados uma filha, uma moço que parece se tratar do neto e muitas sacolas, tarde de compras, talvez Sugere-se então que a Segunda senhora sente-se no lugar deste jovem.
Feita a transação, a Segunda senhora não perde seu tempo precioso na espera e empurra a família da Terceira senhora para se sentar no lugar do jovem de 25 anos. Neste ponto é que a história realmente acontece.
A Segunda senhora e a filha da Terceira iniciam uma batalha homérica, onde nenhum verbo foi poupado. “Velha podre”, “Senta sua velha imunda”, “Cadê a sua educação”, “Eu também estou passando mal, mas tenho respeito”, “Você é que é podre”, “Não, é você”, entre outras saudações foram proferidas aos gritos. A população da locomotiva encontrou, não se sabe como, uma forma de abrir espaço e fez-se um círculo em torno da disputa.
O mais curioso é que a Terceira senhora se levantou e a Segunda não quis se sentar, após ter sido ouvido o mais contundente dentre os xingamentos trocados “Você vai lavar este banco no seu caixão”, esbravejou a filha da Terceira indignada.
O banco vazio, jovens com os fones longe dos ouvidos para ouvir a briga, a Segunda senhora resmungando que não “sou este nome, não sou velha podre”, a filha da Terceira senhora afirmando, convictamente que “a falta de educação não é minha”, a Primeira senhora escondendo o rosto de vergonha. Expectativa.
Nisto, uma Quarta senhora entra no ônibus e, sem ter a mínima noção da cena que acabara de acontecer, senta-se no banco vazio. Risos esparsos podem ser ouvidos. As pessoas envolvidas na briga, sem objeto pelo qual lutar, se calam.
Neste momento lembrei-me da minha avó afirmando categoricamente que “quem muito quer nada leva”. Os animais que disputam a comida, penso, perderiam o jantar para um Quarto elemento que nem ao menos estava ciente da disputa?
Desço do ônibus.
No fim do dia, realmente, tudo gira em torno da sobrevivência.