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Imóvel

sexta-feira, abril 23rd, 2010

Quando os bandidos entraram atirando, só pensei em estrangular aquela arquiteta imbecil

Nesse maldito escritório clean, minimalista, não restou um móvel atrás do qual eu pudesse me esconder”


amanhã,
sábado, dia 24 de abril, será lançado o livro Vem cá que eu te conto em Curitiba.

O evento acontece no Quintana Café - Av. do Batel, 1440, das 16:30 às 20:00 informações, acesse aqui

Escrevi sobre a padaria 24 horas, já que sempre estou lá

quarta-feira, março 24th, 2010

Vicente Machado com Visconde de Nácar. Vinte e quatro horas de padaria. Nunca fecha sempre lá; horas em aberto guarda-chuva que passa a compor o leque que encobre antes de alguém o mundo. Roreja pendurado em pequena poça que se forma no chão do balcão onde sento.

Enquanto não parar de chover eu não vou parar de comer e possivelmente ter no que pensar o que seria um grave regozijo. Quase acontece tudo ao mesmo tempo. Tenho as calças curtas e os pelos da perna terrivelmente umedecidos o que é incômodo. O tempero do bolinho de carne mudou nos últimos dois anos. Enfim, algo mudou nestes anos então. No entanto não posso eu garantir isso.

Do alto do meu raso, vaga à profunda chuva horizontando a rua, no fim é chão com chuva longe, onde fica o barulho borbulhante que é o choque. Numa só e árdua e só formalização perceptiva. Estou é cheio.

Você já foi atendido? Eu olho nos olhos por dois exatos segundos reflexivos meio que em jogo de espelhos barato. Ainda não. E o que vai ser para você? Algo envenenado, de preferência, eu pensava. Algo que rapidamente me conquiste, vicie e aniquile. Quero um jogo de espelhos, entre predador e presa. Deleite coreográfico. Encher e pança. Quero ser eu consumindo, por favor.

Não fui atendido ainda e espero que você compreenda que eu estou profundamente triste por isso. Anota na fichinha o preço que eu pago. Fui pego de calças curtas com a boca em nenhuma botija. A boca estava aberta em espanto escancaro. Coisa barata é que não é, dona. Varo as várias das vinte e quatro horas, por vagas que revogam prerrogativas.

Límerson

Aquele Rosto

sexta-feira, março 19th, 2010


por
Fabio Mattoso - fabio_mattoso@hotmail.com

Almoçava no mesmo lugar todo dia. Todo dia de segunda a sexta. Sempre no mesmo horário, às vezes antes, às vezes depois. Mas nunca havia visto aquele rosto. Só que se lembrava dela, não sabia de onde, mas lembrava dela.

Estava cheio o restaurante, como sempre. As mesas eram para quatro pessoas, sentado a sua frente o colega do trabalho, ao lado dele um senhor desconhecido. Ela sentou ao seu lado.


Agora via seu rosto de perfil, tinha certeza que a conhecia. Ou ao menos que já a havia visto. Só não recordava onde. Tantos clientes: trabalhou em bares, lojas, bancos, sempre atendendo, como se lembrar de todos os rostos. Mas aquele ali o incomodava.


Não era bonito, mas belo. Não era jovem, mas forte. Um rosto de mulher, que luta. Que sofre. Que se desespera. Que segue em frente. Ficou impressionado. Não interessado, apenas impressionado. E não se lembrava de onde.


Seu colega continuava falando, muito até. Assunto importante mesmo. Mas não conseguia ouvir direito. Apenas se concentrava no almoço. Almoço rápido. E na memória que lhe fugia.


Terminaram juntos de comer. Não ele e ela. Não ele e o colega. Ele e o senhor a frente. Esperou o amigo terminar. Olhou para ela mais uma vez. Ela continuava a comer. Com suavidade, mas sem perder tempo.


O colega terminou, levantaram e pagaram a conta, antes de sair ainda a olhou mais uma vez. Desistiu não iria lembrar. Foi embora para o trabalho. E durante toda a tarde esqueceu aquele rosto novamente.


De noite em casa, não conseguia dormir e lembrou-se dela novamente. Não estava interessado nela. Mas alguma coisa nela era importante. Adormeceu tentando lembrar.

E sonhou.


Sonhou com aquele rosto.


Sonhou com aquela boca.


Sonhou com aquele nariz.


Sonhou com aqueles olhos


E as lágrimas nos olhos. E o sangue na boca.


E acordou desesperado.


Agora, lembrava dela. Havia visto ela uma vez. Em uma rua do seu bairro. Junto dela, seu marido. Ou namorado. Ou noivo. Eles brigavam. Gritavam. Ela chorava, ele a ameaçava. Até que lhe deu um soco. Um barulho surdo. Seco. Logo depois mais choro. Ela caiu. Ela a chutou. Pessoas que passavam o atacaram. Seguraram. Derrubaram. Ele apanhou. Ela chorou.


E ele, criança ainda, apenas olhou. Olhou ele. Olhou ela. Olhou nos olhos dela. Nas lágrimas dela. E ali, pela primeira vez, nos olhos lacrimejados dela, viu o amor. Morto amor. Violentado amor. Desvirtuado amor.

Mas viu o amor.

O Quarto do Fumante ou O Canto à Fumaça

sábado, março 13th, 2010

oh, brancos novelos
fumaça pelo quarto
alveje-me os alvéolos
até que o quem sabe
que arquejante agüente
ardente aguante em gole
-me em morte jante
aceleração dos fados
segura o ar e guarda

respira pulsadas espiraladas
o seu vôo batendo em paredes
o sufocante sempre do desarejado
desarroja encantos desalojados
comece em mim como gritante
traço de momento inédito
e desnuda-me do nada
envolvente ausência óbvia
soluço significante tóxico
polução sintáxica da noite
fumáxima punheta inicial

 

 

Limerson

lá no japão

sexta-feira, março 12th, 2010

as paredes tremiam…
― o que foi, teu homem vai à guerra?

o Anel e a Safira

domingo, janeiro 24th, 2010


por
Gladson Pendragon - fabianjournalsociety@gmail.com

“…A nação pode estar certa de que o Rio Grande não esquecerá jamais os seus deveres. O Partido Republicano, (…) e eu, pessoalmente, tudo faremos para impedir um gesto de desvario. Não iniciaremos, nem auxiliaremos nenhum movimento contra a ordem constitucional…”. Borges de Medeiros, governador do Rio Grande do Sul, em discurso realizado antes do golpe militar contra a ordem democrática e o presidente Washington Luís, em 1930.

Primeiro dia: faça-se a luz!

O vento nessa cidade é algo que impressiona, ele é como uma navalha que corta a superfície da pele de modo contínuo, causando enorme desconforto a quem se expões demais. São quatro horas da madrugada do dia 12 de outubro de 1930. O povo se prepara para o feriado nacional, e o golpista Vargas deve estar saindo do Rio Grande  rumo a Ponta Grossa. Tenho cinco dias para investigar os rumores que ouvi antes de sua chegada aqui na estação. “Tropas revolucionárias se preparam para invadir o Espírito Santo”, leio na manchete do jornal matutino que acaba de chegar a estação princesina. Eu e Safira teremos que tomar uma difícil decisão durante os dias que antecedem a chegada das tropas vindas do extremo sul.

- Ei senhor, quer comprar a edição do dia? Pergunta um menino que acaba de abrir o pacote de jornais.

- Me dê um exemplar, guri.

- O senhor não é aquele famoso detetive que viaja pelo caminho do Peabiru com uma linda mulher ao seu lado???! pergunta surpreso o menino de apenas 12 anos e muita perspicácia.

- Hã…sim, sou eu mesmo. Quanto custa o jornal?

- Cinquenta centavos.

Pego o jornal e me dirijo ao hotel em que Safira está, minha bela colega de trabalho e amante ardente. Ao chegar lá, falo com o recepcionista, um rapaz jovem e magro, cheio de sardas na face.

- Bom dia, procuro Safira Holmes. Creio que ela me aguarda.

- Hã, senhor…a senhora Safira se encontra acompanhada pelo capitão Fragoso…

- Então me dê o quarto em frente ao dela para que eu possa descansar o resto da madrugada que ainda tenho. Tome, uma gorjeta para não ver quem chegou ou perguntou qualquer coisa.

- Sim senhor! Quarto 13, ao lado do 15 e em frente ao dela, o 14.                                                                                                                                        

Subi pelas escadas até o quarto e esperei o jovem recepcionista voltar ao saguão. Então dei duas batidas leves na porta de Safira, como combinamos quando estivéssemos em outras companhias. Ela demorou alguns minutos, abriu a porta coberta com seu sobretudo. Entrega uma mala para Alvarez e entra no quarto mais uma vez. Ele olha pela fresta da porta e vê um homem enorme deitado sobre a cama, com duas garrafas de conhaque vazias no chão. Safira sai e percebe o olhar de Cabeza de Vaca.

- Alvarez, sei que não gosta desses métodos que uso às vezes, mas consigo mais informações com aquele porco ali na cama depois de embebedá-lo que você conseguiria em cinco dias de buscas e perguntas na cidade. E o porco fardado bebeu tanto que não conseguiu fazer nada além de se esfregar e jogar aquele bafo em cima de mim se saber disso te deixa mais tranqüilo.

Alvarez abre a porta do quarto em frente ao que Safira estava e coloca sua mala dentro dele. Em seguida abre espaço para que ela entre. Ela se dirige ao banheiro e pede ao detetive que a espere na cama. O moderno hotel contava com um sistema novo de aquecimento de água, o suficiente para quebrar o gelo daquela manhã de 12 de outubro. Alvarez se deita, sonhando com as batalhas que ocorreram desde que no dia 03 de outubro de 1930 os conspiradores se tornaram revolucionários e tomaram em armas contra Washington Luís. É despertado pela bela Safira que o abraça silenciosamente, nua com sua pele de jade brilhando com as gotas de água que refletem a pouca luz ambiente.

- Safira… Murmura Alvarez ao tocar seus lábios. E os amantes se reencontram, deixando o calor de seus corpos aquecerem aquele amanhecer gelado nos Campos Gerais. Ao se levantarem, o dia já estava perto da metade, o barulho de fogos e festas pelo dia da padroeira do Brasil preenchia a cidade e a estação de trem era seu local mais movimentado. Vendedores de algodão-doce ou bugigangas em geral, civis e militares, toda a cidade parecia estar presente à praça em frente a estação, para assistir as festividades. Mas algo mais havia no ar.

- Temos um grande movimento de soldados pela cidade, não acha querido?

- Sim Safira, e vai aumentar à medida que se aproxima o dia em que as tropas do Sul chegarão à cidade. Vou tentar saber com exatidão o horário. Conte-me, o que aquele porco contou que valeu o esforço de suas horas ao lado de tão abjeta pessoa?

- Parece que o presidente ainda tem as tropas de São Paulo e do Distrito Federal. Tão importante quanto ter essas tropas, é saber que uma parte da Maçonaria e das autoridades eclesiais ainda não está convencida que essa ‘revolução’ será algo bom para o país, e espera o momento certo de agir. As informações que tenho confirmam nossas suspeitas: temos um grupo de conspiradores dentro do grupo revolucionário, que pretende um atentado contra o futuro presidente Vargas, por acharem ele “flexível” demais, segundo palavras do próprio capitão Fragoso.

- E a maçonaria está avaliando se deixa ou não ocorrer esse atentado, segundo suas conveniências políticas. Bem, vamos comer algo naquele restaurante que vimos ao lado do hotel e à tarde farei uma visita a loja maçônica aqui perto.

- E eu irei à missa… Safira olha para Alvarez e dá uma piscadela marota.

Começa a escurecer quando Alvarez consegue autorização para sua entrada na loja Maçônica local, uma das mais antigas do Estado do Paraná. O irmão maçom, guardião e vigilante responsável pela entrada da loja o recebe de forma muito gentil e educada, mas com a desconfiança habitual que a profissão de Alvarez Nunes Cabeza de Vaca causa em sociedades fechadas.

- Então o senhor conhece o grande detetive londrino, senhor Alvarez Nunes?

- Sim, senhor Ribas. Foi ele que ensinou a mim quase tudo que sei hoje em termos de técnicas científicas e análise de casos policiais.

Uma profissão deveras interessante. Mas soube de um caso intrigante que ocorreu na Inglaterra, nos últimos anos do século XIX e que a polícia inglesa, mesmo com todas as técnicas modernas, não conseguiu encontrar o assassino de prostitutas… Sente-se certa ironia na voz do jovem maçom ao falar essas palavras a Alvarez Nunes.

- Na realidade senhor Ribas, tive acesso a todos os documentos desse caso e se o autor não foi denunciado formalmente, é porque houve influências maçônica e da família real suficientes para que isso não ocorresse; o mal que adviria dessa natureza ser exposta a luz da verdade seria pior para sociedade vitoriana que os crimes cometidos nas sombras da capital inglesa…

Apesar do tom crítico na resposta de Alvarez, Ribas entendeu que o detetive manteve o silêncio necessário no caso perante a imprensa, ciente que envolvia muito mais que simples homicídios. Se desconhecia o caráter do homem a sua frente, agora o maçom tinha a confirmação dentro da casa maçônica que Alvarez é um cavalheiro entre seus pares.

- Diga-me do que precisas, Alvarez.

- Uma conspiração se anuncia dentro do estado de coisas que se forma com a revolução. De que lado estão os homens de bem dessa casa?

- Estão ao lado da democracia e dos homens livres.

- E quem será o autor da tragédia? Ele está aqui na cidade ou vem de trem com Vargas?

- Nem um nem outro. Eu diria a você que fique de olhos abertos em Epitácio Pessoa, o paraibano, pois ele tem um débito de dois mil réis e nenhum dinheiro em caixa para pagar os revolucionários. Góis Monteiro, Juarez Távora, Leopoldo da Fonseca, Siqueira Campos, Borges de Medeiros ou membros do clero desgostosos com mudanças, todos podem ser o suspeito que busca… Todos têm seus motivos para não deixar o gaúcho chegar ao poder.

- Uma lista grande e poderosa para eu investigar em tão pouco tempo, Ribas.

- Fique atento e descubra o homem que fará o atentado, desconfio que ele tenha cúmplices buscando o melhor meio para isso, para abençoar nosso ditador. E descubra o horário de chegada do trem. Nós já decidimos, não vamos interferir nos rumos da história. A maçonaria se calará sobre esse assunto.

- Eu já imaginava. Obrigado mesmo assim.

E o dia termina com as badaladas do sino da Igreja. Alvarez pensa: espero que as fofocas das donas de casa em meio ao sermão do padre tenham resultado em coisa melhor para minha Safira. Ao terminar de pensar isso, ouve quase sem querer a conversa de duas comadres que vinham da igreja matriz.

- Você viu que homem elegante o novo bispo? Dizem que ele é médico…

- Pois eu ficaria aos seus cuidados. Também com o ébrio que tenho em casa, se matando com bebidas de todos os tipos e cores… 

Sexto dia: o teatro está formado e os atores em posição

Após quatro dias de investigações quase infrutíferas, partindo das informações coletadas por Safira sobre um grupo de dez cangaceiros vindos do nordeste para Ponta Grossa, Alvarez diz:

- Tem alguma coisa que não está certo nisso tudo, Alvarez. Alerta Safira ao analisar todos os fatos recolhidos nos últimos cinco dias de investigação.

- O que lhe parece Safira? Temos apenas uma hora até a chegada do trem a estação.

- Tem soldados demais aqui para que qualquer um, mesmo aqueles matadores nortistas, possam apontar armas para Vargas. Um movimento em falso e qualquer pessoa que o faça seria varado a disparos de fuzil de todos os lados!

- Concordo contigo. Safira, o que faria se quisesse se aproximar de um futuro governante para assassiná-lo sem despertar suspeitas?

- Usaria um Judas. Responde ela.

O apito do trem anuncia a chegada das tropas vindas do Sul. A multidão se aglomera perto da estação saudando o futuro governante da nação brasileira, o ditador Getúlio Vargas.

- Lá vem eles. Diz Alvarez ao apontar um grupo de dez a vinte homens a cavalo, disparando contra o trem de Vargas.

Antes que qualquer estrago possa ser feito, o efeito surpresa dos homens que tentam de assalto atacar o trem termina quando são repelidos por centenas de disparos de todos os lados, criando um pandemônio entre soldados e civis ao redor da estação. Dos vinte homens que atacavam o trem, doze ou mais fogem ante a saraivada de fuzis e outras armas de fogo. O restante é morto.

- Um grupo de Judas bem pago para atirar e fugir. Aqueles que conseguem, recebem sua parte e a parte dos que morrem em ação. Vamos até a estação. O principal ator dessa manobra deve estar esperando a chegada de Vargas. Comenta Alvarez a Safira.

Ao descer na estação, Getúlio e sua comitiva são recebidos por autoridades locais e pelos comandantes da revolução. Entre eles uma figura insuspeita que se aproxima de Vargas e faz um gesto de apreço conhecido de todos. Antes que Vargas beije o anel do bispo, Alvarez se atira contra o corpo do sacerdote, jogando-o ao chão. Safira se mantém em pé entre os corpos dos dois, Getúlio e as armas dos guardas, que ficam espantados ao ver o sacerdote ser seguro pelas mãos de Alvarez, que não deixa ele esconder o anel.

- Perdoe os modos de meu colega, senhor Vargas, mas foi a única forma de impedir que fosse envenenado pelo anel do bispo. 

Após acalmar os ânimos, Safira e Alvarez explicam como chegaram ao autor do atentado.

- Após meu encontro com a maçonaria, fiquei com a dúvida sobre quem deveria ser meu principal suspeito. Epitácio Pessoa era certamente um homem com ambições maiores, e uma dívida maior ainda, mas nada podia provar contra o tio do falecido João Pessoa.  Os gaúchos e os militares eram fiéis demais a revolução para traí-lo, restava apenas um poder grande o suficiente para fazer frente aos sulistas: o grupo de fazendeiros e industriais do Sudeste que não queriam a mudança na política atual. E tinham o apoio da igreja paulista que como sempre apóia aqueles que podem comprar seu pedaço de paraíso.

- E como tu chegaste ao bispo Dornelles, detetive Alvarez? Pergunta o caudilho gaúcho.

- Safira…diz Alvarez, olhando para sua companheira.

- Bem senhor Vargas, quando fui a missa no dia em que Alvarez esteve na Maçonaria, percebi duas coisas além das conversas de comadres: o bispo fez um sermão sobre Mateus 24:32-36 e Lucas 17:20-21. Falava sobre o sinal dos tempos, sobre o Reino de Deus e sobre o papel da Igreja. Um discurso de descontentamento sobre a revolução que viria, com um sotaque bem paulistano.

- Então somando a sua preocupação, com o perdão da palavra senhor Vargas, supersticiosa, em ser vítima de atentados a armas de fogo, mais o teatral ataque dos cangaceiros para exaltar a todos, concluímos que a pessoa que chegaria mais próxima do senhor sem despertar suspeitas seria o bispo. Um homem que tem o conhecimento médico necessário de venenos, somado ao anel de bispo, que seria beijado por você e injetaria o potente veneno. Com certeza senhor Vargas, você não reclamaria da picada, como homem de fronteira que é, não iria demonstrar desconforto com uma simples agulhada até que fosse tarde demais.

A conversa é interrompida por um apito de trem.

- Senhores e senhora. Creio que esse apito avisa à hora de partirmos. Sua mão eu sei que posso beijar com segurança, bela jovem. E a sua aperto com a certeza que temos pessoas boas e sagazes na construção de um novo país. Diz Vargas beijando a mão de Safira e apertando a mão de Alvarez.

- Para onde vão agora, jovens?

- Continuaremos o caminho do Peabiru, o caminho que leva ao céu. Diz Nunes ao futuro presidente do Brasil.

- Bem, tudo o que precisarem é só entrar em contato comigo. Estarei no rumo a Capital Federal, mas sempre aberto aos amigos.

Epílogo

- Será que fizemos a coisa certa, Alvarez? Pergunta Safira, deitada no colo de Alvarez, na cabine particular dos dois em um trem rumo a América de língua espanhola.

- Safira, creio que só a história dirá se Getúlio será um libertador ou apenas mais um ditador na história desse país. Mas nós fizemos o certo. Nenhum homem ou religião tem o direito de decidir sobre a vida de outro.

Dizendo isso, Alvarez beija a testa da companheira e serra os olhos para a longa viagem que se inicia. 

Quixote Água de Colônia.

quinta-feira, dezembro 17th, 2009

por Vitor Souza e Gustavo “Mãozinha” Jugend - themaozinha@yahoo.com.br

“E de repente o sangue virou petróleo.”
Rogério Skylab.

Era 5:45h de uma manhã de outono na região agrária. O que realmente não era relevante, uma vez que em Mucujê as mudanças de estação demoram a se fazer sentir: “Calor da porra!” – Nestor limpava o suor da testa com seu pano quadriculado enquanto caminhava com ânimo curto, porém crescente em direção ao armazém onde mantinha suas sementes para poder dar início ao plantio da nova safra que colheria dalí a 10 estações. No caminho Nestor lamentava (todos os dias a mesma lamentação) que ao comprar o antigo canavial de Seu Theodoro Eurípedes não tinha aproveitado para construir a instalação de armazenagem perto da área destinada ao cultivo.

10 minutos andando ladeira acima e já era possível distinguir as letras esculpidas em madeira recebendo o pançudo fazendeiro: “Grãos do Charong”; Charong, um asiático de ascendência indeterminada, havia sido capataz no Porto de Santos durante 12 anos e sido um dos líderes da Grande Greve. Ao conhecer Dulce, uma baiana dotada de quadris de boa parideira e gênio difícil, Charong largou a rotina paulista pra viver ao lado da morena no nordeste. Lá conheceu Nestor que o empregou como ajudante em Quixote. Um dia Dulce simplesmente desapareceu deixando um amante melancólico pra traz. Após um mês de desgosto Charong se enforcou com uma gravata que nunca soube porque havia comprado.

“O que uma mulher não faz com o cabra… coitado do china.” - Nestor destrancou o cadeado, removeu a corrente, empurrou a barra de madeira pra cima, empurrou a porta e contemplou seu legado (o qual pretendia deixar para Charong, mas..) – dentro da construção 18 geladeiras brancas Conquistador dispostas em círculo trabalhavam imóveis naquela próspera refrigeração fundiária. Cada uma possuía na parte superior da porta um número pintado em preto e logo abaixo uma tabuleta vermelha magnetizada contendo em rabiscos de giz branco os dados da encubação ali contida. Debaixo delas saía um cano individual que conectava-as com Rossi, o motor central que as mantinha funcionando; uma por uma. Rossi era enorme, e para evitar desastres ficava no chão disposta sobre um tapete de palha. O equipamento havia sido construído por Charong e Nestor a partir de várias partes de motores de maverick, fusca, opala e marajó. Depois de pronto Rossi ganhara pintura azul petróleo que lhe conferia um ar sinistro. Sua engrenagem principal não podia ser vista - apenas escutada – um conjunto de 36 corações de cavalo batendo em sincronia num ritmo tão acelerado que as vezes causava agonia até mesmo no proprietário que, por excesso de zelo, entrava ali todas as manhãs. Os corações eram interligados por fios que se atavam a um revestido condutor principal. Este por sua vez dava de encontro a um dispositivo localizado numa cabine no canto do armazém onde uma vez em quatro meses Nestor descarregava- 3960 volts para garantir que Rossi não morresse.

O fundiário foi até a geladeira 13, e retirou um por vez os 3 embriões que lá descansavam levando os para a carroceria metálica atada a Cadafalso, o pequenino trator que uma vez a cada dois anos saía do campo carregado com patas, orelha, rabos, línguas e focinhos para em seguida subir aquela morro, e, no dia seguinte carregar potros congelados. Nestor voltou e repetiu o modo com as geladeiras 14, 15, 16, 17 e 18. “Esse ano mais 18 sementes cinza. Agora é juntar grana pra expandir…”

Nestor montou em Cadafalso, deu a partida e seguiu ladeira abaixo enquanto assoviava sua ladainha favorita. Sem pressa o fazendeiro dirigia seu trator observando o céu matinal; o calor havia aumentado e chuva não cairia tão cedo, mas Nestor já não dava bola – lembrava-se de quando moço que de saco cheio do marasmo local deixara o Paraná em direção a Bahia… Na metade da descida olhou para as hélices verticais abandonadas na propriedade contígua que convertera-se num pasto de bois: “ ..de um coração leviano…” - animado, Nestor transformara a melodia murmurada em palavras cantadas a pleno pulmão – “…que nunca será de ninguém… que nunca será de ninguém…”

Chegando ao campo, o homem, já bastante suado, começou o plantio. Pegava semente por semente posicionando-as ainda congeladas de ventre pra cima. Em seguida cobria-as com terra de maneira que somente cabeça, pernas e um pedaço do rabo ficariam para fora da terra. Todos estes membros eram imediatamente presos uns aos outros por barras de ferro que permitiriam somente vagarosos movimentos para não atrapalhar ainda mais o crescimento dos bichos. O pedaço de terra localizado imediatamente acima da barriga do animal recebia grande quantidade de cimento onde, depois de seco, recebia número. Tudo pronto então Nestor aplicava-lhes na perna injeções de adrenalina para que seus corações ainda resfriados pudessem acelerar seu batimento. Cada cavalo ficava a 14,7m do outro, distância estabelecida por Charong que temia que se os cavalos se aproximassem poderiam, percebendo sua não-solidão revoltar-se.

O relógio marcava já 16:53h e Nestor encontrava-se encharcado de suor. Guardou todo o equipamento e apressou-se em direção a casa. No caminho lembrou que precisava passar no setor de cozimento para certificar-se de que a produção final corria sem problemas. Montou em Cadafalso mais uma vez…

Embaixo do teto de zinco os membros eqüinos decepados eram cozidos em fusão de ervas num caldeirão de 6m de diâmetro numa temperatura que variava de 100 a 300 graus centígrados dependendo do estágio do cozimento. O cheiro agradável que em 2 dias inebriaria o ar e estaria pronto para encher de sonhos as narinas dos varejistas já começava a dar seus sinais. Um sorriso espontâneo esculpiu-se no rosto de Nestor. “Mais um pouco e é engarrafar e vender” – Nestor finalmente dirigia-se ao chuveiro.

Extenuado, resolveu voltar montado no tratorzinho pra casa. Atrás dele o sol começava a se esconder; Nestor torceu o pescoço em direção a saudade e uma lágrima de alegria lhe escorreu ao ler a placa pendurada sob o toldo daquela última parte inspecionada:

Quixote

Água de Colônia.

Cinzas

domingo, novembro 29th, 2009

por Fábio Mattosofabio_mattoso@hotmail.com

Entro em sua casa, a porta dá direto na cozinha. Tanto quanto tímido, tiro meu tênis e deixo ao lado da porta. Você vai direto ao banheiro, que fica no corredor entre a cozinha e o quarto. Observo a cozinha. Fogão, pia, armário, um radio com cd e vinil e K7 - e é novo. Há também a mesa, com outro armário na parede oposta a parede do fogão. Na parede do meio, uma grande janela de onde se vê o centro da cidade inteiro. Tudo muito bem organizado. Alguns CDs, nenhum vinil, livro ou K7. No armário, algumas bebidas quentes. Você sai do banheiro e vai direto para o quarto. Não te vejo de onde estou - apenas escuto o que fala, aliás, fala sem parar.

Fala sobre como foi a noite, como foi o carnaval, sobre como anda sozinha, sobre como me deseja há tempos, sobre não ter beijado no carnaval inteiro e sobre já ser quarta feira de cinzas. Me faz notar que salvei seu carnaval. Não sei o motivo, mas me sinto bem com isso. Falando ainda, você volta à cozinha - que agora percebo também ser sala. Direto a geladeira, me entrega uma lata de cerveja, junto com um beijo delicioso e molhado. Vai ao armário e pega uma garrafa de whisky e serve uma dose generosa. Bebemos no mesmo copo.

Eu fico quieto. Ainda não acredito que estou aqui. Como é que um bêbado num boteco, no final do carnaval, vem parar na casa da mulher que é considerada uma das mais lindas e gostosas da cidade? Uma mulher que os homens pagam uma fortuna para terem durante alguns minutos. Uma mulher forte como você. Deve ser meu charme. Minha simpatia. Minha aparência. Ou desespero seu.

Você me faz parar de pensar, para de falar um pouco e me beija.

Me beija apaixonadamente e eu correspondo. Levanta da cadeira e senta no meu colo, continua me beijando e me abraça. Eu tento avançar, minhas mãos invadem sua blusinha, uma acaricia suas costas, a outra permanece parada, você continua a me beijar te afasto um pouco, suficiente para minha mão buscar seus seios, você tira minha mão e a deixa na barriga. Você para de me beijar e bebe um gole da bebida, eu mato minha cerveja. Levanta e me traz outra. Dessa vez vejo dentro da geladeira. Há cerveja o suficiente. Senta novamente no meu colo e voltamos a conversar. Dessa vez falo mais. Falamos sobre tudo e nada. Tudo não importa. E o nada me faz te entender. E te entendendo, me apaixono. E me entrego à paixão. Mesmo que seja só por essa manhã. Mesmo que seja só por esse dia. E tenho consciência disso e você, você também sabe, melhor do que eu.

continua…

Questão de sobrevivência

quinta-feira, outubro 15th, 2009

por Vanda Moraes - vandymoraes@yahoo.com.br

No fim do dia tudo gira em torno da sobrevivência. Uma vez que se aprende esta lição fica muito fácil conviver com animais selvagens que podem te devorar.

Outro dia lendo a biografia (recomendo) do sempre brilhante Slash, me deparei com este pensamento. Segundo ele, é muito mais fácil conviver com animais selvagens, como cobras e leões, do que com a maioria das pessoas que se julgam humanas e dizem ser civilizadas.

Na última sexta-feira, sem nem mesmo ter planejado, presenciei uma cena que confirmou esta teoria: estava usufruindo o “modelo de transporte público da cidade ecológica”. Seis horas da tarde, a melhor parte de usar o ônibus bi-articulado é o calor humano que pode ser sentido. Cheiro de suor, pessoas que se empurram na luta pelo espaço menos pior…

Ligeiramente à minha frente, em um lugar (dito) preferencial, um garoto, menos de 20 anos, está despreocupadamente acomodado. Uma senhora, cerca de 60 anos (que chamaremos aqui de Primeira), pede gentilmente o lugar explicando, inclusive, que machucou a perna e não consegue mais ficar em pé. O menino, como não poderia ser diferente, levanta-se e se segura como pode na multidão que se acotovela.

Nisto, outra senhora (que chamaremos de Segunda, apenas pela ordem sem nenhum juízo de valor), cerca de 60 anos, também, se dirige àquela que afirmou estar com o pé machucado, e solicita o lugar, não tão delicadamente assim. A primeira senhora explica, então, a sua situação: está com o pé machucado, é idosa também.

Logo à frente outro lugar preferencial é dividido por um jovem, cerca de 25 anos e uma senhora (esta a Terceira), em cuja companhia podem ser encontrados uma filha, uma moço que parece se tratar do neto e muitas sacolas, tarde de compras, talvez Sugere-se então que a Segunda senhora sente-se no lugar deste jovem.

Feita a transação, a Segunda senhora não perde seu tempo precioso na espera e empurra a família da Terceira senhora para se sentar no lugar do jovem de 25 anos. Neste ponto é que a história realmente acontece.

A Segunda senhora e a filha da Terceira iniciam uma batalha homérica, onde nenhum verbo foi poupado. “Velha podre”, “Senta sua velha imunda”, “Cadê a sua educação”, “Eu também estou passando mal, mas tenho respeito”, “Você é que é podre”, “Não, é você”, entre outras saudações foram proferidas aos gritos. A população da locomotiva encontrou, não se sabe como, uma forma de abrir espaço e fez-se um círculo em torno da disputa.

O mais curioso é que a Terceira senhora se levantou e a Segunda não quis se sentar, após ter sido ouvido o mais contundente dentre os xingamentos trocados “Você vai lavar este banco no seu caixão”, esbravejou a filha da Terceira indignada.

O banco vazio, jovens com os fones longe dos ouvidos para ouvir a briga, a Segunda senhora resmungando que não “sou este nome, não sou velha podre”, a filha da Terceira senhora afirmando, convictamente que “a falta de educação não é minha”, a Primeira senhora escondendo o rosto de vergonha. Expectativa.

Nisto, uma Quarta senhora entra no ônibus e, sem ter a mínima noção da cena que acabara de acontecer, senta-se no banco vazio. Risos esparsos podem ser ouvidos. As pessoas envolvidas na briga, sem objeto pelo qual lutar, se calam.

Neste momento lembrei-me da minha avó afirmando categoricamente que “quem muito quer nada leva”. Os animais que disputam a comida, penso, perderiam o jantar para um Quarto elemento que nem ao menos estava ciente da disputa?

Desço do ônibus.

No fim do dia, realmente, tudo gira em torno da sobrevivência.

Parabéns para males

sexta-feira, setembro 4th, 2009

felicidades Beyonce!

por Felipe Martynetz - felipe.littera@gmail.com

Dentre todas as cerimônias prezadas pela suposta civilização, a provavelmente mais estranha é a que concerne à data de nascimento de alguém. O dito aniversário, afinal, traz consigo a curiosa formalidade dos “parabéns”. E, apesar do invejável arsenal de hábitos absolutamente despropositados, nenhum outro, ao que me lembre, é tão intrinsecamente absurdo quanto o referido. Se discorda, vejamos: o que pode ser mais grotesco do que se parabenizar uma pessoa qualquer por ter nascido há tantos anos? Com efeito, louva-se a pessoa em questão por ter sido parida há X anos – como se, de fato, houvera mérito em um tal “grandioso” acontecimento. “Paz, amor, saúde, tudo de bom!”, “Feliz aniversário!”, “Hoje é o seu dia, você merece!” e afins são as imbecilidades mais freqüentemente ouvidas pelos aniversariantes, cujo poder de comoção em face de tão enfadonhos clichês é tão intenso e expressivo quanto um cadáver em putrefação.

Ser-me-á – não tenho dúvidas – objetado que, mesmo que infundado, o costume do aniversário proporciona, no fim de contas, boas conseqüências, as quais seriam a reunião de pessoas que pouco ou raramente se vêem, o singular momento de afeto e alegria propiciado pela ocasião, a aproximação de pessoas daí resultante, além de o aniversariante, mesmo que seja um paspalho repulsivo, sentir-se infinitamente mais amado e alegre que em sua banal existência cotidiana, inegável fruto do fato de ser o centro absoluto das atenções. Contudo, sob uma análise mais detida de nossa parte, mesmo esse débil suspiro de otimismo em favor da tradição sucumbe e se revela, infelizmente, uma ilusão – e, por conseguinte, o unanimemente prezado costume, não bastando carecer de fundamento, mostra-se pernicioso e estúpido. Se o argumento em favor do costume do aniversário é precisamente a harmonia, a alegria e o afeto como um todo que ele possibilita às pessoas que dele participam, por que isso requer um dia específico para se realizar? Por que, em suma, tem-se de esperar um determinado dia do ano para que semelhante ambiente de confraternização seja estabelecido? Há, por acaso, algo que impeça uma convivência diária colorida pelos mesmos carinho e alegria que caracterizam a ocasião do aniversário?

Assim sendo, somos levados à conclusão de que o hábito de se desejar “parabéns” a outrem pode, perfeitamente, camuflar uma colossal falta de afeto inerente ao dia a dia, processo pelo qual a indiferença, a frieza, travestida com os trajes da covardia, atende pelo nome de adestramento – ou, como se costuma chamar mais poeticamente, educação.