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Deboches e fricotes do lado de fora do TCA

terça-feira, março 9th, 2010

Na manhã de domingo (07/03), faltaram poltronas no Teatro Castro Alves para acomodar toda a legião de fãs de Luiz Caldas. Tietes que ficaram de fora do show protestaram com bom humor

por Franco Caldas Fuchs - francofuchs@gmail.com

Salvador-BA, Enquanto do lado de dentro do Teatro Castro Alves (TCA) o músico Luiz Caldas mostrava a sua versatilidade, no show “Toda Música de Luiz Caldas”, mesclando música erudita, rock e axé, do lado de fora do teatro o público que não conseguiu entrar no recinto mostrava toda a sua indignação.

Por volta das 10h30 de domingo, com o fim dos ingressos (que custavam R$ 1, dentro do projeto Domingo no TCA), os portões do teatro foram fechados – meia hora antes de o show começar. “Eu vou quebrar a cara do sujeito que trabalha aí e que disse que ainda haveria ingresso às dez horas”, bradava, diante do portão, um homem exaltado, que tentava negociar com uma atendente a sua entrada no teatro. “Vim aqui às 9 horas e não me deixaram pegar o ingresso e voltar para casa para tomar um banho. E agora quando eu volto não tem mais como comprar”, explicava. Segundo os atendentes do TCA, a prática de só vender ingressos para quem permanece dentro do teatro é adotada para impedir a ação de cambistas.

Bem menos raivosas, mas ainda sim bastante decepcionadas, estavam as irmãs Evanildes e Maria da Graça Silva. “Estamos frustradas. Foi meia hora de carro para chegar aqui e nada”, conta a pedagoga aposentada Maria da Graça, 60 anos. “Eu, minha irmã e minhas amigas somos todas fã antigas, do tempo de dançar o ti, ti, ti [diz ela, fazendo os passos de dança]. E do tempo em que o Luiz não gostava de andar de sapato”, lembra a enfermeira aposentada, Evanildes, 64. “Agora ele só anda calçado. Coitado, também ficou velho, juntou calo, não aguenta mais as agruras do solo”, brinca a enfermeira. “Se bem que, para a idade, ele ainda está bem sexy. Ainda dá algum caldo”, opina Maria da Graça.

Corpo a corpo com os seguranças

terça-feira, março 9th, 2010

“Pega ela aí… Pra quê? Pra passar batom… Que cor?…” Na entrada lateral do TCA, batendo palmas, cantando e dançando, outras fãs tentavam persuadir os seguranças, para que eles liberassem a entrada. Na linha de frente, puxando o protesto, as “luiz caldetes” Margareth Lunna e Maria Lúcia se destacavam literalmente no maior “deboche” (nome como também era conhecido o estilo de música de Caldas). “Olha, sou empresária da costura, poderosa, estou solteira… Deixa eu entrar, segurança!”, dizia Maria, de 59 anos, que chegou ao TCA após as 10h30. “E pensar que fui vizinha do Luiz, em Vitória da Conquista. Meu irmão José Bonfim era amigão dele, e eu não posso ver o show”, contava ela, triste.

“Eu bem que poderia dar um carteiraço para entrar aqui, mas preferi apenas protestar”, disse a artista plástica Margareth, de 46 anos, indignada. “Poxa, sou artista reconhecida na Itália, meu ex-marido já tocou percussão com o Luiz, e eu ainda vim vestida especialmente para o show!”, argumentava, mostrando a sua saia “fricote”, tirada do fundo do baú. “Essa saia eu usava nos antigos shows dele. Deve ter uns 24 anos. E veja só, ainda cabe direitinho!”, contava, requebrando em frente ao TCA.

Meia hora depois de o show ter começado, os gritos de “Luiz Caldas, cadê você, eu vim aqui só pra te ver”, emitidos por Margareth e demais fãs ainda ecoavam perdidos pelo Campo Grande. Mas em vão. A organização do TCA se manteve irredutível em sua resolução de não colocar nenhuma pessoa no teatro além do número de poltronas disponíveis.

Já quem chegou cedo e pôde conferir o artista não teve do que reclamar. “Showzaço”, “maravilhoso” e “muito bom” foram alguns dos adjetivos ouvidos pela reportagem sobre a apresentação.

Luiz Caldas, meu parente

terça-feira, março 9th, 2010

Em Curitiba, já perdi a conta das vezes em que ouvi esta pergunta: “E esse sobrenome Caldas? Você é parente do Luiz Caldas? Aquele da Tieta… que dançava descalço…?” Mesmo duvidando muito dessa possibilidade, sempre gostei de responder com um absoluto “sim”. Ainda mais que meu bisavô Aristides Caldas era baiano…

Pois bem. Para acabar de vez com esse dilema, levei a questão à pessoa certa. No fim do show de Luiz Caldas, lá estou eu, no camarim do Teatro Castro Alves, aguardando a minha vez para trocar uma ideia com ele. O acesso ao camarim, vale dizer, foi graças à Margareth Lunna, que literalmente me empurrou para dentro do teatro ao fim da apresentação, e graças à compositora Juliana Ribeiro, que conhece o Luiz e também estava por lá.

Depois de uns vinte minutos de espera, chega a hora de eu conhecer pessoalmente o “pai da axé music”, que daquele visual antigo, de quando cantava “Tieta” ou “Fricote” nos anos 80, hoje, não carregada quase nada. Com um piercing no nariz, e todo vestido de preto – do all star, passando pela calça jeans, a camiseta e as unhas – o estilo de Luiz é o de um roqueiro moderno. E é esse sujeito completamente repaginado que me recebe com um caloroso aperto de mão.

Em poucos minutos então resumo para ele o meu dilema: “Sou jornalista, de Curitiba, e lá todo mundo me pergunta se somos parentes. O que você acha?” Ao que ele responde, rindo: “Ora, quem sabe? O ramo da família é muito grande. Por que não?”, diz Luiz, que depois pacientemente ainda dá um autógrafo ao “Franco Caldas, amigo e parente!” – palavras dele.

ESSA MISSA É UM SHOW

quarta-feira, abril 1st, 2009

por Franco Caldas Fuchs

JTG acompanha uma missa do padre multimídia Reginaldo Manzotti na igreja do Guadalupe

A equipe do TiraGosto resolveu assistir a uma missa. Isso mesmo. Nós aqui também temos a nossa fé, e como ninguém da redação tinha assistido a uma missa do padre Reginaldo Manzotti, que já há um bom tempo tornou-se um fenômeno da mídia, o JTG decidiu ir à paróquia Nossa Sra. do Guadalupe. Ali, toda quinta-feira às 20h, Manzotti faz celebrações que são posteriormente veiculadas na televisão pela Paraná Educativa.

À procura do padre
A reportagem chegou às 17h na igreja e logo saiu à procura do padre Manzotti para uma entrevista. Na lojinha que existe no andar térreo da construção, perguntamos sobre o seu paradeiro a um simpático senhor, que descobrimos ser Antônio Manzotti, pai de Reginaldo. Antônio, infelizmente, disse que seria impossível falar com o seu filho naquela tarde sem termos combinado um horário com antecedência.

Padre Manzotti é realmente um homem muito ocupado. Realiza missas não só na paróquia Nossa Sra. do Guadalupe, como pelo Paraná afora e em outros estados do país. Entre outras atividades, também apresenta programas na rádio Evangelizar AM e mantém um portal na internet.

O sagrado e o profano

quarta-feira, abril 1st, 2009

Ao sairmos da loja, um fato curioso. No chão encontramos um santinho, que não era de Santo Expedito nem de nenhum outro santo conhecido. O papelzinho dizia apenas: “Karol, iniciante, loira, 21 anos. Local central. 3039-3544”.

Mas se o leitor pensa que isso é uma profanação de um espaço religioso, saiba que encontrar tal propaganda de serviços sexuais ali não é tão estranho quanto parece. Afinal, a igreja do Guadalupe está encravada no centro de Curitiba, tendo bares e casas de prostituição como vizinhos de rua.

Some-se isso ao fato de que, por fora, em algumas partes a igreja passa por reformas – há estruturas de concreto bruto inacabadas – externamente o visual da paróquia é bem pouco convidativo. Todavia, quem entra nessa casa de Deus muda completamente de opinião.

O interior amplo da igreja, o pé-direito enorme, suas paredes dominadas por uma camada de tinta novinha, azul bebê, e ainda seus belos vitrais, são um bálsamo para os olhos. Sem falar da temperatura amena que reina ali dentro – um alívio para quem acabou de subir uma das duas extensas rampas de acesso até a igreja.

Igreja lotada

quarta-feira, abril 1st, 2009

O relógio no alto do edifício Itália marca 20h. 10º. A missa começa. O interior da igreja está completamente lotado – “Tinham que fazer um igreja maior”, diz um homem com o filho no colo – e há cerca de duzentas pessoas do lado de fora, que se espalham pelas duas rampas laterais. São homens e mulheres, crianças, adultos e velhos, em sua maioria bem arrumados e de banho tomado.

No meio desse turbilhão, destaca-se um casal de bêbados, que participa ativamente da missa, seja cantando ou fazendo comentários absurdos, para a indignação dos seguranças do local.

Desenvoltura digna de um astro de rock

quarta-feira, abril 1st, 2009

“Hey, hey, hey, Jesus é nosso rei”, é o que diz uma canção do padre Manzotti, num estilo que parecia da jovem guarda. Muitas pessoas choram, se emocionam, cantam e fazem coreografias com as mãos. “Agora só nas palmas!”, incendeia Manzotti.

Em certo momento, o padre pergunta ao público: “Valeu a pena chegar 1 hora antes?” E a multidão – vinda de bairros distantes, da região metropolitana e outras cidades – responde em alto e bom som: “Valeu!”

Medalhinhas de Nossa Sra. são distribuídas e disputadas quase aos tapas pelos fiéis. Mas além das medalhinhas há outros artefatos que podem ser adquiridos durante a missa. Do lado de fora da igreja há uma barraquinha que vende desde camisetas de Reginaldo Manzotti, bem como seus cds, livros e bonecos “Manzottinho” (confeccionados em tecido, com fragrância de jasmim).

Arruaceiros são postos para fora

quarta-feira, abril 1st, 2009

O casal de bêbados agora bagunça ainda mais – a bêbada, em especial. Ela manda as pessoas calarem a boca e insiste para assistir a missa do lado de dentro da igreja. Os seguranças lançam palavras repreensivas e avisam que, se eles não se comportarem, terão de se retirar. “Ninguém vai encostar a mão na minha mulher!”, responde o marido, fazendo pose de machão.

Alguns riem das molecagens dessa dupla de ébrios, mas a maioria nem dá bola. Está hipnotizada diante da performance do padre.

“Quem aqui acompanha a rádio Evangelizar?”, indaga Manzottti. O povo todo levanta a mão. Muitas dessas pessoas inclusive financiam a rádio e com isso participam do projeto de adquirir terreno, torre, gerador e transmissor novos para a estação.

Às 20h30, no momento em que Manzotti fala da necessidade da igreja recuperar “as pessoas que fumam baseado, que ficam na pedrinha de crack”, os seguranças chamam reforços e arrastam os bêbados para a rua.

Onipresença quase divina

quarta-feira, abril 1st, 2009

Às 20h50 é celebrada a eucaristia e as hóstias são distribuídas até para quem está do lado de fora da igreja. Na verdade o fato de ter gente para fora é tão normal que por ali também há caixas de som. Quem não pode ver a missa direito, pelo menos ouve bem as músicas e orações.

já no finalzinho do ritual, após mais algumas bênçãos, o padre faz um último lembrete: ” e quem puder, não deixe de acessar nosso site: www.padrereginaldomanzotti.org.br !

É o esforço de Manzotti, “o padre Marcelo de Curitiba”, para atingir uma onipresença quase divina. Seja na igreja, na televisão, no rádio ou na internet, só dá ele.

Dez.2007 - reportagem especial da edição zero do TiraGosto
Franco Caldas Fuchs

A elevação pelos ganchos

sexta-feira, fevereiro 13th, 2009

Foto: Addiction Arts

 

Mesmo quem não é ligado na body art e na body mod (arte e modificação corporal, em inglês) já deve ter ouvido falar de pessoas que gostam de ficar suspensas por ganchos atravessados na pele. Tal prática não é novidade.

 

Mas o que é novo para nós, do JTG, é descobrir que as suspensões também acontecem com uma certa frequência em Curitiba, e que elas não são, exatamente, “coisa de maluco”.

 

Como nos explicou Rafael de Lima, de 27 anos, precursor da suspensão na cidade, para se enfrentar os ganchos, “é preciso estar bem física e psicologicamente”.

Na semana passada, Rafael nos recebeu na Addiction Arts, seu estúdio de tatuagem e piercing, e nos deu vários toques sobre o assunto. Um resumo desse papo é o que você encontra a seguir.

Dor ou prazer?

Ficar pendurado como uma carne no açougue dói ou não dói? Eis uma das primeiras perguntas que fizemos a Rafael, que preferiu nos responder primeiro narrando a origem dessa prática na Índia, há mais de dois mil anos. Segundo ele, a suspensão era um dos muitos exercícios utilizados pelos hindus para se buscar a elevação espiritual.

 

Ela só iria adquirir uma imagem negativa sob os olhares dos primeiros ocidentais que a testemunharam, e também através da igreja católica que, na idade média, quis usar a suspensão como instrumento de tortura aos hereges.

 

“O interessante foi quando os padres viram que, certas pessoas, depois de penduradas, começavam a dar risada. Não demonstravam dor, o que, para eles, só podia ser coisa do diabo”.

 

Na verdade, explica Rafael, as pessoas riam porque, com a adrenalina e outros hormônios que são liberados pelo organismo nessas situações, a dor se torna mínima. Para o espanto dos padres, quem conseguia relaxar naqueles momentos era tomado por um grande prazer.

 

Estar suspenso é algo indescritível, garante Rafael. “Não tem nada, nem sexo, que  possa bater essa sensação. Você se sente poderoso, o dono do mundo”. Ele revela que chega a entrar numa espécie de transe, ao ficar pendurado de cabeça para baixo, preso pelos joelhos.