Posts Tagged ‘Gladson Fabian’

o Anel e a Safira

domingo, janeiro 24th, 2010


por
Gladson Pendragon - fabianjournalsociety@gmail.com

“…A nação pode estar certa de que o Rio Grande não esquecerá jamais os seus deveres. O Partido Republicano, (…) e eu, pessoalmente, tudo faremos para impedir um gesto de desvario. Não iniciaremos, nem auxiliaremos nenhum movimento contra a ordem constitucional…”. Borges de Medeiros, governador do Rio Grande do Sul, em discurso realizado antes do golpe militar contra a ordem democrática e o presidente Washington Luís, em 1930.

Primeiro dia: faça-se a luz!

O vento nessa cidade é algo que impressiona, ele é como uma navalha que corta a superfície da pele de modo contínuo, causando enorme desconforto a quem se expões demais. São quatro horas da madrugada do dia 12 de outubro de 1930. O povo se prepara para o feriado nacional, e o golpista Vargas deve estar saindo do Rio Grande  rumo a Ponta Grossa. Tenho cinco dias para investigar os rumores que ouvi antes de sua chegada aqui na estação. “Tropas revolucionárias se preparam para invadir o Espírito Santo”, leio na manchete do jornal matutino que acaba de chegar a estação princesina. Eu e Safira teremos que tomar uma difícil decisão durante os dias que antecedem a chegada das tropas vindas do extremo sul.

- Ei senhor, quer comprar a edição do dia? Pergunta um menino que acaba de abrir o pacote de jornais.

- Me dê um exemplar, guri.

- O senhor não é aquele famoso detetive que viaja pelo caminho do Peabiru com uma linda mulher ao seu lado???! pergunta surpreso o menino de apenas 12 anos e muita perspicácia.

- Hã…sim, sou eu mesmo. Quanto custa o jornal?

- Cinquenta centavos.

Pego o jornal e me dirijo ao hotel em que Safira está, minha bela colega de trabalho e amante ardente. Ao chegar lá, falo com o recepcionista, um rapaz jovem e magro, cheio de sardas na face.

- Bom dia, procuro Safira Holmes. Creio que ela me aguarda.

- Hã, senhor…a senhora Safira se encontra acompanhada pelo capitão Fragoso…

- Então me dê o quarto em frente ao dela para que eu possa descansar o resto da madrugada que ainda tenho. Tome, uma gorjeta para não ver quem chegou ou perguntou qualquer coisa.

- Sim senhor! Quarto 13, ao lado do 15 e em frente ao dela, o 14.                                                                                                                                        

Subi pelas escadas até o quarto e esperei o jovem recepcionista voltar ao saguão. Então dei duas batidas leves na porta de Safira, como combinamos quando estivéssemos em outras companhias. Ela demorou alguns minutos, abriu a porta coberta com seu sobretudo. Entrega uma mala para Alvarez e entra no quarto mais uma vez. Ele olha pela fresta da porta e vê um homem enorme deitado sobre a cama, com duas garrafas de conhaque vazias no chão. Safira sai e percebe o olhar de Cabeza de Vaca.

- Alvarez, sei que não gosta desses métodos que uso às vezes, mas consigo mais informações com aquele porco ali na cama depois de embebedá-lo que você conseguiria em cinco dias de buscas e perguntas na cidade. E o porco fardado bebeu tanto que não conseguiu fazer nada além de se esfregar e jogar aquele bafo em cima de mim se saber disso te deixa mais tranqüilo.

Alvarez abre a porta do quarto em frente ao que Safira estava e coloca sua mala dentro dele. Em seguida abre espaço para que ela entre. Ela se dirige ao banheiro e pede ao detetive que a espere na cama. O moderno hotel contava com um sistema novo de aquecimento de água, o suficiente para quebrar o gelo daquela manhã de 12 de outubro. Alvarez se deita, sonhando com as batalhas que ocorreram desde que no dia 03 de outubro de 1930 os conspiradores se tornaram revolucionários e tomaram em armas contra Washington Luís. É despertado pela bela Safira que o abraça silenciosamente, nua com sua pele de jade brilhando com as gotas de água que refletem a pouca luz ambiente.

- Safira… Murmura Alvarez ao tocar seus lábios. E os amantes se reencontram, deixando o calor de seus corpos aquecerem aquele amanhecer gelado nos Campos Gerais. Ao se levantarem, o dia já estava perto da metade, o barulho de fogos e festas pelo dia da padroeira do Brasil preenchia a cidade e a estação de trem era seu local mais movimentado. Vendedores de algodão-doce ou bugigangas em geral, civis e militares, toda a cidade parecia estar presente à praça em frente a estação, para assistir as festividades. Mas algo mais havia no ar.

- Temos um grande movimento de soldados pela cidade, não acha querido?

- Sim Safira, e vai aumentar à medida que se aproxima o dia em que as tropas do Sul chegarão à cidade. Vou tentar saber com exatidão o horário. Conte-me, o que aquele porco contou que valeu o esforço de suas horas ao lado de tão abjeta pessoa?

- Parece que o presidente ainda tem as tropas de São Paulo e do Distrito Federal. Tão importante quanto ter essas tropas, é saber que uma parte da Maçonaria e das autoridades eclesiais ainda não está convencida que essa ‘revolução’ será algo bom para o país, e espera o momento certo de agir. As informações que tenho confirmam nossas suspeitas: temos um grupo de conspiradores dentro do grupo revolucionário, que pretende um atentado contra o futuro presidente Vargas, por acharem ele “flexível” demais, segundo palavras do próprio capitão Fragoso.

- E a maçonaria está avaliando se deixa ou não ocorrer esse atentado, segundo suas conveniências políticas. Bem, vamos comer algo naquele restaurante que vimos ao lado do hotel e à tarde farei uma visita a loja maçônica aqui perto.

- E eu irei à missa… Safira olha para Alvarez e dá uma piscadela marota.

Começa a escurecer quando Alvarez consegue autorização para sua entrada na loja Maçônica local, uma das mais antigas do Estado do Paraná. O irmão maçom, guardião e vigilante responsável pela entrada da loja o recebe de forma muito gentil e educada, mas com a desconfiança habitual que a profissão de Alvarez Nunes Cabeza de Vaca causa em sociedades fechadas.

- Então o senhor conhece o grande detetive londrino, senhor Alvarez Nunes?

- Sim, senhor Ribas. Foi ele que ensinou a mim quase tudo que sei hoje em termos de técnicas científicas e análise de casos policiais.

Uma profissão deveras interessante. Mas soube de um caso intrigante que ocorreu na Inglaterra, nos últimos anos do século XIX e que a polícia inglesa, mesmo com todas as técnicas modernas, não conseguiu encontrar o assassino de prostitutas… Sente-se certa ironia na voz do jovem maçom ao falar essas palavras a Alvarez Nunes.

- Na realidade senhor Ribas, tive acesso a todos os documentos desse caso e se o autor não foi denunciado formalmente, é porque houve influências maçônica e da família real suficientes para que isso não ocorresse; o mal que adviria dessa natureza ser exposta a luz da verdade seria pior para sociedade vitoriana que os crimes cometidos nas sombras da capital inglesa…

Apesar do tom crítico na resposta de Alvarez, Ribas entendeu que o detetive manteve o silêncio necessário no caso perante a imprensa, ciente que envolvia muito mais que simples homicídios. Se desconhecia o caráter do homem a sua frente, agora o maçom tinha a confirmação dentro da casa maçônica que Alvarez é um cavalheiro entre seus pares.

- Diga-me do que precisas, Alvarez.

- Uma conspiração se anuncia dentro do estado de coisas que se forma com a revolução. De que lado estão os homens de bem dessa casa?

- Estão ao lado da democracia e dos homens livres.

- E quem será o autor da tragédia? Ele está aqui na cidade ou vem de trem com Vargas?

- Nem um nem outro. Eu diria a você que fique de olhos abertos em Epitácio Pessoa, o paraibano, pois ele tem um débito de dois mil réis e nenhum dinheiro em caixa para pagar os revolucionários. Góis Monteiro, Juarez Távora, Leopoldo da Fonseca, Siqueira Campos, Borges de Medeiros ou membros do clero desgostosos com mudanças, todos podem ser o suspeito que busca… Todos têm seus motivos para não deixar o gaúcho chegar ao poder.

- Uma lista grande e poderosa para eu investigar em tão pouco tempo, Ribas.

- Fique atento e descubra o homem que fará o atentado, desconfio que ele tenha cúmplices buscando o melhor meio para isso, para abençoar nosso ditador. E descubra o horário de chegada do trem. Nós já decidimos, não vamos interferir nos rumos da história. A maçonaria se calará sobre esse assunto.

- Eu já imaginava. Obrigado mesmo assim.

E o dia termina com as badaladas do sino da Igreja. Alvarez pensa: espero que as fofocas das donas de casa em meio ao sermão do padre tenham resultado em coisa melhor para minha Safira. Ao terminar de pensar isso, ouve quase sem querer a conversa de duas comadres que vinham da igreja matriz.

- Você viu que homem elegante o novo bispo? Dizem que ele é médico…

- Pois eu ficaria aos seus cuidados. Também com o ébrio que tenho em casa, se matando com bebidas de todos os tipos e cores… 

Sexto dia: o teatro está formado e os atores em posição

Após quatro dias de investigações quase infrutíferas, partindo das informações coletadas por Safira sobre um grupo de dez cangaceiros vindos do nordeste para Ponta Grossa, Alvarez diz:

- Tem alguma coisa que não está certo nisso tudo, Alvarez. Alerta Safira ao analisar todos os fatos recolhidos nos últimos cinco dias de investigação.

- O que lhe parece Safira? Temos apenas uma hora até a chegada do trem a estação.

- Tem soldados demais aqui para que qualquer um, mesmo aqueles matadores nortistas, possam apontar armas para Vargas. Um movimento em falso e qualquer pessoa que o faça seria varado a disparos de fuzil de todos os lados!

- Concordo contigo. Safira, o que faria se quisesse se aproximar de um futuro governante para assassiná-lo sem despertar suspeitas?

- Usaria um Judas. Responde ela.

O apito do trem anuncia a chegada das tropas vindas do Sul. A multidão se aglomera perto da estação saudando o futuro governante da nação brasileira, o ditador Getúlio Vargas.

- Lá vem eles. Diz Alvarez ao apontar um grupo de dez a vinte homens a cavalo, disparando contra o trem de Vargas.

Antes que qualquer estrago possa ser feito, o efeito surpresa dos homens que tentam de assalto atacar o trem termina quando são repelidos por centenas de disparos de todos os lados, criando um pandemônio entre soldados e civis ao redor da estação. Dos vinte homens que atacavam o trem, doze ou mais fogem ante a saraivada de fuzis e outras armas de fogo. O restante é morto.

- Um grupo de Judas bem pago para atirar e fugir. Aqueles que conseguem, recebem sua parte e a parte dos que morrem em ação. Vamos até a estação. O principal ator dessa manobra deve estar esperando a chegada de Vargas. Comenta Alvarez a Safira.

Ao descer na estação, Getúlio e sua comitiva são recebidos por autoridades locais e pelos comandantes da revolução. Entre eles uma figura insuspeita que se aproxima de Vargas e faz um gesto de apreço conhecido de todos. Antes que Vargas beije o anel do bispo, Alvarez se atira contra o corpo do sacerdote, jogando-o ao chão. Safira se mantém em pé entre os corpos dos dois, Getúlio e as armas dos guardas, que ficam espantados ao ver o sacerdote ser seguro pelas mãos de Alvarez, que não deixa ele esconder o anel.

- Perdoe os modos de meu colega, senhor Vargas, mas foi a única forma de impedir que fosse envenenado pelo anel do bispo. 

Após acalmar os ânimos, Safira e Alvarez explicam como chegaram ao autor do atentado.

- Após meu encontro com a maçonaria, fiquei com a dúvida sobre quem deveria ser meu principal suspeito. Epitácio Pessoa era certamente um homem com ambições maiores, e uma dívida maior ainda, mas nada podia provar contra o tio do falecido João Pessoa.  Os gaúchos e os militares eram fiéis demais a revolução para traí-lo, restava apenas um poder grande o suficiente para fazer frente aos sulistas: o grupo de fazendeiros e industriais do Sudeste que não queriam a mudança na política atual. E tinham o apoio da igreja paulista que como sempre apóia aqueles que podem comprar seu pedaço de paraíso.

- E como tu chegaste ao bispo Dornelles, detetive Alvarez? Pergunta o caudilho gaúcho.

- Safira…diz Alvarez, olhando para sua companheira.

- Bem senhor Vargas, quando fui a missa no dia em que Alvarez esteve na Maçonaria, percebi duas coisas além das conversas de comadres: o bispo fez um sermão sobre Mateus 24:32-36 e Lucas 17:20-21. Falava sobre o sinal dos tempos, sobre o Reino de Deus e sobre o papel da Igreja. Um discurso de descontentamento sobre a revolução que viria, com um sotaque bem paulistano.

- Então somando a sua preocupação, com o perdão da palavra senhor Vargas, supersticiosa, em ser vítima de atentados a armas de fogo, mais o teatral ataque dos cangaceiros para exaltar a todos, concluímos que a pessoa que chegaria mais próxima do senhor sem despertar suspeitas seria o bispo. Um homem que tem o conhecimento médico necessário de venenos, somado ao anel de bispo, que seria beijado por você e injetaria o potente veneno. Com certeza senhor Vargas, você não reclamaria da picada, como homem de fronteira que é, não iria demonstrar desconforto com uma simples agulhada até que fosse tarde demais.

A conversa é interrompida por um apito de trem.

- Senhores e senhora. Creio que esse apito avisa à hora de partirmos. Sua mão eu sei que posso beijar com segurança, bela jovem. E a sua aperto com a certeza que temos pessoas boas e sagazes na construção de um novo país. Diz Vargas beijando a mão de Safira e apertando a mão de Alvarez.

- Para onde vão agora, jovens?

- Continuaremos o caminho do Peabiru, o caminho que leva ao céu. Diz Nunes ao futuro presidente do Brasil.

- Bem, tudo o que precisarem é só entrar em contato comigo. Estarei no rumo a Capital Federal, mas sempre aberto aos amigos.

Epílogo

- Será que fizemos a coisa certa, Alvarez? Pergunta Safira, deitada no colo de Alvarez, na cabine particular dos dois em um trem rumo a América de língua espanhola.

- Safira, creio que só a história dirá se Getúlio será um libertador ou apenas mais um ditador na história desse país. Mas nós fizemos o certo. Nenhum homem ou religião tem o direito de decidir sobre a vida de outro.

Dizendo isso, Alvarez beija a testa da companheira e serra os olhos para a longa viagem que se inicia. 

Urano vs Trieste

segunda-feira, dezembro 21st, 2009

por Gladson Fabian Marques - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

Final de campeonato, decisão importante quase no final de 2009, os dois melhores clubes da competição, árbitro FIFA apitando o jogo. Vitória de virada do clube considerado favorito na final. Aqui terminam as coincidências entre o jogo da TV nesse sábado, dia 19 de dezembro de 2009, entre o campeão da Libertadores e o campeão da Liga dos Campeões, e a grande final da melhor suburbana do país, realizada em Curitiba, capital do Paraná, com o clube Trieste, do famoso bairro de Santa Felicidade, reduto gastronômico local, e o clube Urano, da vila São Pedro, um pequena localidade dentro do bairro Xaxim, de origem humilde e muita tradição no futebol. 

Após uma das melhores competições dos últimos anos, o Urano chegou a final passando com certa tranqüilidade pelo Uberlândia, a surpresa do campeonato, enquanto o Trieste enfrentou dois jogos difíceis contra o Vila Hauer. Definidos os finalistas, a primeira partida da final teve contornos dramáticos, causados pelo temporal que caiu na cidade no momento do jogo. A interrupção da partida levou o primeiro jogo para a semana seguinte, no mesmo estádio, o Francisco Muraro, casa do Trieste. Uma semana depois, o clube dos descendentes italianos mostrou que manda em sua casa e venceu a partida por 2 a 1, levando a vantagem do empate para o segundo jogo. Mas a suburbana da capital mostrou porque é considerada o melhor campeonato amador do país, e em um jogo emocionante, o time da vila São Pedro vence a partida pelo mesmo placar e leva a decisão para uma terceira partida.

Confrontos entre policia e torcedores tomam as manchetes da capital paranaense 

 

Após os confrontos entre a torcida do Coritiba e policiais no último jogo do brasileirão da série A, não se falava em outra coisa na cidade de Curitiba. A vergonhosa atuação da torcida coxa-branca no jogo do rebaixamento do alviverde paranaense fez com que se questionasse: se em um jogo de tamanha envergadura isso ocorreu, o que dizer de uma final de campeonato amador, em uma vila da periferia, com um campo onde as torcidas ficam juntas?

Pois quem olhasse para o outro lado do campo, em frente às cabines de TV e rádio, veria uma cena rara nos campeonatos espalhados pelo país: respeito entre torcedores de dois clubes. Não havia nada separando os torcedores do Trieste e Urano, nenhuma cerca, policiais ou fosso. Sim, havia policiais em campo, pois o árbitro do jogo não era nada mais, nada menos que Héber Roberto Lopes, árbitro FIFA. Isso mesmo, aqui campeonato amador é levado à sério, mas os policiais ficavam do outro lado do campo, e não foi necessária a presença dos mesmos para separar tumultos ou invasões de campo, que ocorreram sim, mas no final da partida para comemorar a vitória do clube com melhor campanha.

Em dia de muita animação, com a transmissão ao vivo de rádio locais e com a presença da TV pública de televisão que fez o jogo para posterior transmissão, o Urano venceu o terceiro jogo da final pelo placar de 3 a 2, com direito a dois gols do grande nome do jogo o jogador Flavinho. Ao final do jogo, o atleta desabafou para as câmeras, sobre sua trajetória, onde passou por um período difícil de contusões que quase o tiraram do futebol, de uma jornada de trabalho que começa às cinco da manhã, até sua persistência que o levou a ser o herói do título dessa suburbana. Bicampeonato garantido, o clube da vila São Pedro mostrou que futebol se ganha na raça, pois mesmo em um jogo tecnicamente bom, o Trieste, um time com mais toque de bola e com cinco jogadores garantidos na primeira divisão do paranaense do ano que vem, jogando pelo Rio Branco de Paranaguá- em uma parceria entre as duas agremiações- não conseguiu superar a vontade de vencer do time da casa.

Ivo Petry, técnico do Urano mostrou como se monta um time para uma final, deixando no banco seu grande trunfo, Reginaldo Vital, ex-Paraná Clube, e colocando o ex-jogador profissional na metade do segundo tempo, quando o placar já apontava o Urano como campeão da Suburbana 2009. Nomes como Rafael Camarota, goleiro campeão brasileiro pelo Coritiba em 1985 estiveram presentes no local para ver o bom jogo, e ao apito do árbitro o campeonato amador foi premiado com uma bela festa, sem violência e com muita alegria.

Itinerário para um jogo amador

segunda-feira, dezembro 21st, 2009

Antes de chegar ao jogo da final da Suburbana entre Trieste e Urano, tinha que descobrir como chegar lá. Se fosse no campo do Trieste tudo bem, Santa Felicidade é perto, com um acesso fácil na saída de Curitiba para Campo Largo. Acontece que a Vila São Pedro fica no outro lado da cidade, saída para Porto Alegre. Contava com uma carona da equipe da TV, pedida ao editor de esportes um dia antes. Quando cheguei à TV, sábado após o almoço descobri que não teria lugar no carro, pois o editor iria junto para o estádio. Bacana isso, mas a minha sorte de principiante sempre funciona nessas horas: o repórter Bruno estava atrasado e o editor em seu desespero saiu sem ele para local. Faltava chegar o Leandro que sairia de fotógrafo dessa matéria.

Meia hora depois chegou o repórter, faltava agora o fotógrafo. Já havia ligado atrás dele, mas até agora nada do mesmo. Saímos da TV sem ele e fomos para o fim do mundo, mundo curitibano, mas lá no fim mesmo. Chegamos ao local quarenta minutos depois de sair da TV, e uma multidão estava do lado de fora do campo, um estádio de várzea daqueles com muros antigos e portões enferrujados. Um frio passa pela espinha nessa hora. Juro que pensei em voltar com o Zecão, nosso motorista que nos levou até a Vila São Pedro e que voltaria para a TV. Mas sou mais teimoso que isso, aliás, é por isso que continuo nessa profissão que dá pouco dinheiro, mas muita satisfação no que fazemos.

 

A primeira dificuldade seria entrar no estádio, já que o Bruno estava sem credenciais de imprensa. Mas pelo portão de entrada os caras até que foram legais, deixaram nós dois entrarmos com a minha credencial da TV e a carteira de jornalista. Entramos e o jogo já estava em andamento, quando pisamos dentro do estádio, gol do Trieste. Novamente me passou aquela vontade de ir embora, vai que me confundem com torcedor do time adversário perdido no lado errado? Chegamos ao primeiro portão interno para entrar na área dos vestiários. Uma bela morena conseguiu entrar tranquilamente no local, estilo VIP. Isso irritou alguns torcedores que queriam ficar no local privilegiado e um deles pediu ao segurança do portão que falasse para o cartola do time local que ele estava ali. O segurança perguntou se tinha cara de guri de recados e uma discussão começou. E o Bruno e eu ali, no meio da multidão…Novamente insisti com a carteira de jornalista, o segurança quis emperrar nossa entrada mas o Bruno ganhou na insistência e com uma ajuda do Bolinha da Arfoc, que nos deixou passar pelo segundo portão que levava aos vestiários e à entrada do campo.

 


Acompanhamos o jogo da área dos vestiários até o término do primeiro tempo e pudemos ver o empate e a virada do Urano nos últimos minutos de jogo. Ao acabar o estresse, olhei ao nosso redor e na direção das equipes de imprensa que narravam o jogo para as rádios. No lado oposto às torcidas, estava a cabine de imprensa e quem olhasse distraidamente poderia acreditar por um instante que se encontrava em uma final de campeonatos de meados do século passado. Uma cabine anacrônica, em um campo simples com alambrados antigos, sem separação entre as torcidas.

 


Entramos no gramado e pisei pela primeira vez em um campo de várzea em uma final de Suburbana. Encontrei a nossa equipe de TV perto da cabine com outras duas equipes de rádio, uma de São José dos Pinhais e outra de uma rádio AM curitibana, com o ex-jogador e ídolo atleticano Sicupira comentando a partida.

 


Já passava da metade do segundo tempo quando o diretor da TV chegou ao local para ver como estava a transmissão. Bem humorado, cumprimentou todos e até perguntou o que eu fazia por ali (era meu dia de folga). Poderia ter dito que estava ali para aprender como se faz jornalismo esportivo, mas nessas horas eu sempre travo e sai alguma coisa idiota, como “vendo o jogo, doutor”…

 


E o jogo? Bem, o Trieste empatou com outro belo gol, mas a estrela do lateral esquerdo Flavinho do Urano, que não estaria jogando se um problema não tivesse tirado o seu concorrente a vaga do time titular, brilhou mais uma vez e com dois gols o jogador do Urano foi o nome da partida no bicampeonato do clube.

 


Terminada a partida, entramos em campo. O Bruno estava com o microfone da produtora contratada para fazer o jogo, então sobrou para eu entrar em campo com o cinegrafista, segurando o outro microfone da TV para buscar depoimentos de jogadores e torcedores felizes com o desfecho do campeonato. É, a primeira entrada no campo a gente nunca esquece! Bem e meu fotógrafo? A irmã dele me ligou à noite em minha casa, para perguntar se eu tinha visto ele. Fui saber no dia seguinte que ele esteve no local, não conseguiu entrar e viu o jogo no melhor estilo anos 1920: pelas frestas do muro do estádio.

Québec - Comprenez-vous français?

sexta-feira, agosto 28th, 2009

MontrealAuto-estrada em Montreal, maior cidade de Québec- foto divulgaçãoQuébec busca imigrantes com qualificação profissional

por Gladson Fabian Marques - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

Estiveram ontem em Curitiba, na Universidade Positivo, uma delegação do Ministério do Trabalho do Canadá, vindos diretamente da província de Québec, região autônoma da nação mais ao norte das Américas. O objetivo dos funcionários do governo canadense é incentivar profissionais gabaritados a imigrarem para a província do Québec, um Estado com autonomia administrativa onde mais de 80% da população fala o idioma francês, tem uma origem latina e uma cultura cosmopolita. Somente no ano de 2009, 50 mil pessoas de diferentes partes do mundo emigraram para as diversas cidades de Québec, para somar a sua população de mais de sete milhões de habitantes.

Québec tem uma história ligada aos conflitos entre ingleses e franceses pelas colônias no Novo Mundo. Fundada em 1608 pelo rei Henrique IV da França, a província do Québec é a maior província do Canadá, com uma área territorial três vezes maior do que a França e com uma economia sólida e crescente, com 68% de seu PIB baseado no setor de serviços (3º setor) e apenas 2% no setor primário. É também a maior geradora de energia do país, com 95% da energia consumida pela província gerada em usinas hidrelétricas, grande fonte de empregos na indústria, que também emprega pessoas nas áreas de telecomunicações, mineração e aeroespacial.

Um dado importante para aqueles que querem imigrar é que em Québec não há desiquilíbrios regionais entre seus municípios, prevalecendo uma equidade social entre seus cidadãos e suas cidades. Respeito pelas diferenças e pelo meio ambiente são parte fundamental da sociedade quebequense, intolerância racial, social, religiosa ou sexual não são toleradas pelos cidadãos, a educação fundamental e o ensino médio são gratuitos a todos os canadenses e às pessoas com visto de residente permanente, assim como a assistência hospitalar gratuita.

O ensino superior é pago, mas o valor em média é de 3 mil dólares canadenses por ano, e tanto os cidadãos canadenses como aqueles com visto de residência permanente podem fazer uso de suas faculdades e ainda pedir empréstimos ao governo para pagar ao final do curso, com juros que variam de 0,5 a 1% ao ano.

Os valores de salário para os profissionais é variável, mas uma pessoas em início de carreira em áreas com formação simples ganham em torno de 40 a 45 mil dólares canadenses por ano (o dólar canadense tem uma paridade de R$1,70/1), com uma moeda estável e possibilidades reais de mudança de profissão caso deseje o imigrante. Uma dica valiosa para avaliar o custo de vida é buscar na internet sites de mercados e imobiliárias online quebequenses para saber quanto custará viver na cidade onde deseja se mudar.

Todas as cidades da província tem centros locais de desenvolvimento, que fazem feiras de emprego aos candidatos ao visto de residente permanente, e o governo quebequense auxilia a adaptação com mil horas gratuitas de aulas de francês ao interessados em morar em Québec.

Como Fazer

Ao entrar no site www.imigration-quebec.ca , o candidato encontrará uma questionário para saber quais suas reais possibilidades de ser aprovado no visto de residente permanente, podendo o candidato fazer uma seleção anônima antes de inscrever seus dados. Se você for aprovado, receberá o visto de residência permanente e após cinco anos, se o candidato tiver dois anos alternados (entre permanência e férias no Brasil, por exemplo) no Canadá, terá seu visto revalidado. Após três anos de moradia em Québec, o imigrante pode entrar com pedido de cidadania canadense. Como imigrante com visto de residência permanente, é possível usufruir do sistema de saúde canadense, abrir um negócio, entrar em sair do país a qualquer momento, trabalhar e ter os mesmos direitos trabalhistas de um cidadão. Após adquirir sua cidadania, terá direito a votar e ser votado e obter o passaporte canadense, sem necessitar renunciar a sua cidadania original.

No site www.cnt.gouv.qc.ca é possível ler um pouco mais sobre a legislação trabalhista e os direitos e deveres do cidadão quebequense.

Critérios de avaliação

Québec possui um dos mais transparentes processos de seleção de trabalhadores do mundo. Vale ressaltar que a província, ao contrário de outros países, não busca profissionais de baixa escolaridade e/ou capacitação, e apesar de respeitar todos os cargos e funções de uma sociedade, a meta do programa de imigração é trazer ao pais do norte profissionais com cursos de formação técnica e/ou superior, para manter o crescimento econômico da região e manter as taxas de crescimento populacional dentro do limite mínimo para uma economia se manter aquecida.

O nível de escolaridade é um dos requisitos que traz maior pontuação ao candidato, assim como experiência profissional na área de atuação, idade igual ou inferior a 35 anos, domínio das línguas francesa e/ou inglesa, capacidade de conseguir trabalho a curto prazo, e a assinatura de um termo de compromisso de possuir recursos financeiros ao entrar no país. Nesse último quesito, é bom frisar quanto é essa quantia por pessoa: algo em torno de 2700 dólares canadenses, sendo que o governo não vai averiguar se a pessoa tem esse dinheiro; ele parte da premissa que se você assinou o termo é porque diz a verdade. A idade também não é um impedimento, mas se estiver dentro do limite citado, conta pontos, assim como a língua francesa pode contar muitos pontos, mas nenhum dos critérios acima se faltar é motivo para barrar o candidato.

Outras áreas que podem facilitar o acesso: área de estudo correlata com a necessidade local de trabalhadores especializados; ter no passaporte uma viagem de turismo ao Québec, ter filhos (sim! O Canadá facilita para aqueles que desejam criar seus filhos na sociedade quebequense, inclusive com turmas escolares com aulas de adaptação ao francês).

Passo a passo

Após dar entrada nos papéis e marcar sua entrevista com o comitê de imigração ao Québec, o candidato irá preencher um formulário chamado “demande de certificat de selection”. Enviará junto com o formulário cópias simples dos seus documentos e pagará a taxa de 390 dólares canadenses, via cartão de crédito internacional (pode ser de outra pessoa). Caso tenha um conjugue, o valor pago pelo parceiro(a) é de 150 dólares canadenses. Se é um casal, e um dos dois tem uma pontuação menor na avaliação, ele pode entrar como conjugue do candidato, podendo assim aumentar as chances reais de saírem do país e imigrarem para Québec.

A etapa dois do processo consiste em uma entrevista em São Paulo, com os responsáveis pela sua avaliação. Ela será feita em francês (o entrevistador é versado em português, por isso não tenha medo de responder o que não souber em sua língua natal), onde será avaliado seu domínio da língua francesa, se conhece outro idioma (inglês e/ou espanhol), será comparado os documentos fotocopiados com os seus originais, seu projeto de vida e sua capacidade de trabalhar a curto prazo. Uma dica: a pior resposta que pode dar é “faço qualquer coisa que aparecer”, pois este não é o perfil que procuram.

O tempo do envio dos fomulários até a chamada para a entrevista varia de três a cinco meses e a emissão do certificado de seleção de Québec (CSQ) sai logo após a entrevista, ou seja, se você for aprovado, não tem que esperar para saber.

A etapa três é a admissão, agora nas mãos do governo canadense. Ele é responsável pela normas de segurança e saúde do país, e irá avaliar seu pedido de visto, que deve ser expedido pelo consulado canadense. Não há outra entrevista nessa etapa, e o consulado leva de sete a dez meses para emitir seu visto no passaporte, após a verificação de negativa de antecedentes criminais. As taxas para verificação e emissão são de 550 e 495 dólares canadenses, respectivamente.

Caso tenha se interessado, acesse o site www.radio-canada.ca/actualite para saber mais sobre a cultura quebequense, ou o site imigration-quebec.ca para agendar sua entrevista. No endereço www.emploiquebec.net você poderá verificar as áreas com maior chance de sucesso profissional e ressaltamos aqui que o Québec pretende nos próximos anos contratar mais de 250 mil profissionais especializados para manter suas fabulosas taxas de crescimento de sua bela província.

O foca e a Vaca - II mandamento

quinta-feira, agosto 13th, 2009

clique na imagem para visualizá-la melhor

O Foca & A Vaca tira#3

quarta-feira, agosto 5th, 2009

clique na imagem para visualizá-la melhor

O Foca & A Vaca tira #2

quarta-feira, agosto 5th, 2009

clique na imagem para visualizá-la melhor

O Foca & A Vaca

quarta-feira, agosto 5th, 2009

clique na imagem para visualizá-la melhor

por Gladson Fabian - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

Cabe aqui uma breve introdução a série de tiras que começarei a publicar em meu blog e no TiraGosto a partir desse mês. Corria o ano de 2001, estava em meu penúltimo ano de faculdade e um congresso de comunicação que reuniria estudantes dos diversos cursos da área iria ser realizado em Brasília, capital do poder brasileiro, no mês de julho de 2001. Entre as temáticas do congresso, cursos e palestras, uma série de acontecimentos off-topic acabaram por pautar os jornais da época: uma competição de cannabis feita por respeitáveis estudantes de jornalismo, publicidade, relações públicas e cinema. Confesso que não me interessei pelo tema, visto que sempre fui alternativo entre alternativos do meu curso, e como a moda era participar desses eventos, preferi fazer fotografia publicitária com um mestre da área lá mesmo de Brasília, e assistir filmes alternativos e ouvir as palestras como do editor da Caros Amigos, de quem sempre fui um fã confesso.

Mas o que me chamou a atenção, além das belas garotas do curso, foi uma oficina que um amigo meu achou no evento, chamada Oficina de Espumagem. Fui lá um dia pra ver o que era e ele, em sua psicodélica inocência, decidiu fazer um chapéu que, se recordo bem, fez o maior sucesso no evento: um chapéu de vaca, inspirado naquele belo animal que nos serve o leite nosso de cada dia. Parece estranho, mas meu amigo, que nasceu e cresceu em uma chácara próxima de Ponta Grossa-PR, vem de uma família de holandeses, então quis fazer uma justa homenagem ao nobre animal.

Do alto de seu 1,90m, com um chapéu enorme de uma vaca que sempre estava com seus óculos escuros  a tiracolo, uma lata de cerveja apoiada em um dos braços e um cigarro pendurado na outra, a vaca acabou servindo de símbolo da Universidade Estadual de Ponta Grossa e, duvido eu, que passados oito anos, alguém tenha esquecido do cara com chapéu de vaca do famoso congresso de jornalismo de 2001.

Espero que divirtam-se com o Foca e a Vaca!

Não nascido

quarta-feira, março 18th, 2009

a banalidade do mau filme

por Gladson Fabian - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

Unborn (Alma Perdida, no Brasil) é o mais novo filme de suspense e terror a estrear em terras tupiniquins essa semana e tem tudo para ser um grande sucesso… nas prateleiras das locadoras curitibanas. O filme dirigido e escrito por David S. Goyer, é um mergulho no folclore judaico de demônios e seres que vagam pelo nosso mundo, segundo as superstições medievais dessa cultura que deu origem ao cristianismo.

No filme vemos a jovem Casey Beldon ser afligida por pesadelos e aparições de uma criatura que acreditam ser o dybbuk, um espírito malévolo presente na demonologia judaica, que se torna assustador mais pelo fato de se mostrar como criança na história de Alma Perdida.Em mais um dos clichês sobre como o mal se formou nos campos de concentração nazistas, descobrimos que tudo começa com um menino que morre em terríveis experiências feitas pelo médico Joseph Mengele, que abrem uma ‘porta’ para outro universo e deixam entrar em nossa realidade o dybbuk, uma alma proibida de ir para o Céu e que busca desesperadamente um corpo para possuir.

O terror judaico-cristão da morte e do além-vida, o descaso e o pavor com a velhice, o medo inconsciente da próxima geração estilizado nas crianças como recipientes do mal, a sabedoria religiosa vista aqui no Rabino Sendak (interpretado por Gary Oldman), e a valorização da juventude e beleza em cenas em super-close da jovem atriz Odette Yustman, todos os possíveis clichês de uma geração hedonista podem ser encontrados em maior ou menos grau em Alma Perdida.O diretor David S. Goyer não se dá nem ao trabalho de fazer um desfecho que fuja do usual em filmes do gênero e opta por conquistar para as salas de cinema os espectadores que buscam o senso comum naquilo que assistem em suas sessões de sábado.

Spirit, de Frank Miller

segunda-feira, março 16th, 2009

por Gladson Fabian - fabianjournalsociety@yahoo.com.br

 

Contrariando as expectativas sobre o filme do adorado personagem de Will Eisner, o filme Spirit ficou dentro do que podemos esperar de um personagem sem pretensões, criado pelo genial escritor e desenhista norte-americano, criador da moderna forma de contar histórias em quadrinhos.

Para aqueles que esperam uma narrativa gráfica no mesmo alto padrão que Eisner, podem se decepcionar com o roteiro de Frank Miller, afeito a narrativas secas e diretas, bem ao estilo realizado por ele em seus trabalhos de Sin City, a cidade do pecado criada para suas histórias policiais estilo “noir”.

 

Contando com a boa presença de Samuel L. Jackson no papel de Octopus o arqui-inimigo de Spirit, o filme conta com um roteiro despretensioso, assim como nas histórias curtas contadas pelo falecido gênio dos quadrinhos em mais de 50 anos de Spirit, e nos apresenta um roteiro quase ingênuo, com belas mulheres e cenas de luta um tanto cômicas, retiradas do velho estilo de fazer heróis nos gibis da década de 1940.

 

O próprio Eisner há muito tempo abandonou sua criação mais famosa, por saber que ela está fadada a temporalidade, e o filme soa mais como uma homenagem ao seu criador, feito pelo homem que mais entende de quadrinhos e narrativa gráfica na atualidade. Miller nos dá uma amostra de seu talento em cenas e planos que carregam nos contrastes e assinam sua forma de fazer cinema, que soa como arte para alguns e repetitiva para outros.

 

Spirit é uma produção feita na medida para que adultos e crianças possam assistir lado a lado, pois se os fãs do herói e, principalmente do seu criador, Will Eisner, querem saber como o personagem seria em carne-e-ossos, Frank Miller se mostrou fiel ao seu mestre. E para as crianças, acostumadas a violência na TV e nos games, aqui temos uma versão caricata dessa violência urbana, com arquétipos de heróis, mocinhas e vilões sem nuances de cinza, deixando claro que o filme não pretende ser uma obra-prima para críticos e cinéfilos fãs de Godard, mas duas horas de diversão sem compromisso.

 

É nisso que residia toda a força do trabalho de Eisner: saber separar a arte feita para iluminar mentes daquela feita apenas para divertir.